sexta-feira, 29 de maio de 2009


O mal. – Examinem a vida dos melhores e mais fecundos homens e povos e perguntem a si mesmos se uma árvore que deve crescer orgulhosamente no ar poderia dispensar o mau tempo e os temporais; se o desfavor e a resistência externa, se alguma espécie de ódio, ciúme, teimosia, suspeita, dureza, avareza e violência não faz parte das circunstâncias favoráveis sem as quais não é possível um grande crescimento, mesmo na virtude? O veneno que faz morrer a natureza frágil é um fortificante para o forte – e ele nem o chama de veneno.

sábado, 23 de maio de 2009


A ilusão dos contemplativos. – Os homens superiores distinguem-se dos inferiores por verem e ouvirem incalculavelmente mais e por verem e ouvirem pensando – e justamente isso distingue o homem do animal e os animais superiores dos inferiores. O mundo se torna cada vez mais pleno para aquele que se eleva ao cume da humanidade, há cada vez mais anzóis pra captar seu interesse; cresce constantemente a quantidade dos seus estímulos, e também a de suas espécies de prazer e desprazer – o homem superior torna-se cada vez mais feliz e infeliz ao mesmo tempo. Mas nisso há uma ilusão que sempre o acompanha: ele acredita ser um espectador e ouvinte colocado ante o grande espetáculo visual e sonoro que é a vida: ele denomina a sua natureza de contemplativa e não vê que ele próprio é também o verdadeiro e incessante autor da vida – que ele certamente se distingue bastante do ator desse drama, o chamado homem de ação, mas ainda mais de um simples convidado e observador sentado diante do palco. Sem dúvida lhe pertencem, como poeta, a vis contemplativa [poder de contemplação] e o olhar retrospectivo sobre a obra, mas também e sobretudo a vis creativa [poder criador], que falta ao homem de ação, apesar do que digam as evidências e crença de todos nós. Nós, os pensantes-que-sentem, somos os que de fato e continuamente fazem algo que ainda não existe: o inteiro mundo, em eterno crescimento, de avaliações e negações. Esse poema de nossa invenção é, pelos chamados homens práticos (nossos atores, como disse), permanentemente aprendido, exercitado, traduzido em carne e realidade, em cotidianidade. O que quer que tenha valor no mundo de hoje não o tem em si, conforme sua natureza – a natureza é sempre isenta de valor: – foi-lhe dado, oferecido um valor, e fomos nós esses doadores e ofertadores! O mundo que tem algum interesse para o ser humano, fomos nós que o criamos! – Mas justamente este saber nos falta, e se num instante o colhemos, no instante seguinte voltamos a esquecê-lo: desconhecemos nossa melhor capacidade e nos subestimamos um pouco, nós, os contemplativos – não somos tão orgulhosos nem tão felizes quanto poderíamos ser.

domingo, 17 de maio de 2009


O indivíduo soberano, igual apenas a si mesmo, novamente liberado da moralidade do costume, indivíduo autônomo supramoral (pois "autônomo" e "moral" se excluem), em suma, o homem da vontade própria, duradoura e independente, o que pode fazer promessas - e nele encontramos, vibrante em cada músculo, uma orgulhosa consciência do que foi finalmente alcançado e está nele encarnado, uma verdadeira consciência de poder e liberdade, um sentimento de realização. Este liberto ao qual é permitido prometer, este senhor do livre-arbítrio, este soberano - como não saberia ele da superioridade que assim possui sobre todos os que não podem prometer e responder por si, quanta confiança, quanto temor, quanta reverência desperta - ele "merece' as três coisas - e como, com esse domínio sobre si, lhe é dado também o domínio sobre as circunstâncias, sobre a natureza e todas as criaturas menos seguras e mais pobres de vontade? O homem "livre", o possuidor de uma duradoura e inquebrantável vontade, tem nesta posse a sua medida de valor: olhando para os outros a partir de si, ele honra ou despreza; e tão necessariamente quanto honra os seus iguais, os fortes e confiáveis (os que podem prometer) - ou seja, todo aquele que promete como Um soberano, de modo raro, com peso e lentidão, e que é avaro com sua confiança, que distingue quando confia, que dá sua palavra como algo seguro, porque sabe que é forte o bastante para mantê-la contra o que for adverso, mesmo "contra o destino" -; do mesmo modo ele reservará seu pontapé para os débeis doidivanas que prometem quando não podiam fazê-lo, e o seu chicote para o mentiroso que quebra a palavra já no instante em que a pronuncia. O orgulhoso conhecimento do privilégio extraordinário da responsabilidade, a consciência dessa rara liberdade, desse poder sobre si mesmo e o destino, desceu nele até sua mais íntima profundeza e tornou-se instinto, instinto dominante - como chamará ele a esse instinto dominante, supondo que necessite de uma palavra para ele? Mas não há dúvida: este homem soberano o chama de sua consciência...

sábado, 16 de maio de 2009


O que é querer?– Rimos daquele que saiu de seu aposento no minuto em que o Sol deixa o dele, e diz; "Eu quero que o Sol se ponha"; e daquele que não pode parar uma roda e diz: "Eu quero que ela rode"; e daquele que no ringue de luta é derrubado, e diz: "Estou aqui deitado, mas eu quero estar aqui deitado!". No entanto, apesar de toda a risada, agimos de maneira diferente de algum desses três, quando usamos a expressão "eu quero"?

sexta-feira, 15 de maio de 2009


A farsa de muitos laboriosos. – Eles conseguem tempo livre mediante um excesso de emprenho e depois não sabem o que fazer com ele, exceto contar as horas até que acabe.

quinta-feira, 14 de maio de 2009


Ter muita alegria. – Quem tem muita alegria deve ser uma boa pessoa: mas talvez não seja a mais inteligente, embora obtenha precisamente aquilo que a mais inteligente procura com toda a sua inteligência.

quarta-feira, 13 de maio de 2009


No tear. – Contra os poucos que têm prazer em desatar os nós das coisas e desmanchar sua trama, há muitos (todos os artistas e mulheres, por exemplo) que se empenham em atá-los e confundi-los de novo, assim transformando o compreendido em incompreendido e, se possível, em incompreensível. Não importando o que mais resulte disso – o que foi tramado e atado sempre parecerá um tanto sujo, pois nele trabalham e atuam muitas mãos.

terça-feira, 12 de maio de 2009


Até agora os homens trataram as mulheres como pássaros que lhes tivessem caído das alturas: como algo mais delicado, mais vulnerável, mais doce, selvagem, exótico e cheio de alma - mas como algo que se prende, para que não fuja voando.

segunda-feira, 11 de maio de 2009


Abuso dos conscienciosos. - Foram os conscienciosos, não os sem consciencia, que tiveram de sofrer terrivelmente sob a coação das prédicas à penitência e medos do inferno, sobretudo se eram também homens de imaginação. De modo que ensombreceu-se a vida justamente daqueles que necessitavam de jovialidade e imagens graciosas - não apenas para sua recuperação e cura de si mesmos, mas para que a humanidade pudesse com eles alegrar-se e acolher um raio de sua beleza. Oh, quanta supérflua crueldade e tortura animal teve origem nas religiões que inventaram o pecado! E nos homens que quiseram, com isso, ter a mais alta fruição do seu poder.

quinta-feira, 7 de maio de 2009


"Este quadro é encantadoramente belo..." A mulher literária, insatisfeita, agitada, vazia no coração e nas entranhas, sempre a ouvir, com penosa curiosidade, o imperativo que sussurra, das profundezas de sua constituição, aut liberi aut libri [ou filhos ou livros]; a mulher literária, suficientemente culta para compreender a voz da natureza, mesmo quando ela fala latim, e, por outro lado, suficientemente tola e vaidosa para falar secretamente em francês consigo: "je me verrai, je me lerai, je m'extasierai et je derai: Possible, que j' ai eu tant d' esprit?" [eu me verei, eu me lerei, eu me extasiarei e direi: É possível que eu tenha tido tanto espírito?]...

quarta-feira, 6 de maio de 2009


Jardineiro e jardim. – De dias úmidos e turvos, da solidão, de palavras sem amor que escutamos, nascem conclusões, à maneira de cogumelos: surgem numa manhã, não sabemos de onde, e olham para nós, cinzentos e ranzinzas. Ai do pensador que não é jardineiro, mas apenas o solo de suas plantas!

terça-feira, 5 de maio de 2009


Os pretendentes da realidade. – Quem finalmente percebe como e por quanto tempo foi enganado, abraça, por despeito, até a realidade mais feia: de modo que, vendo-se a marcha do mundo em seu conjunto, a esta couberam, em todas as épocas, os melhores de todos os pretendentes – pois os melhores sempre foram melhor e mais longamente iludidos.

segunda-feira, 4 de maio de 2009


Aos que sonham com a imortalidade. – Então desejam que essa bela consciência de si mesmos tenha duração eterna? Não é isso uma desfaçatez? Não pensam em todas as demais coisas, que teriam de suportá-los por toda a eternidade, como até o momento os suportaram com paciência mais que cristã? Ou acreditam poder lhes dar um eterno sentimento de agrado com vocês? Um único homem imortal sobre a Terra já seria bastante para infundir em todos os demais viventes, por fastio com ele, um furor geral de morte e suicídio! E vocês, terráqueos, com sua noçãozinha de alguns milhares de minutos no tempo, querem importunar eternamente a eterna existência universal! Poderia haver algo mais impertinente? – Mas, enfim: sejamos indulgentes com um ser de setenta anos de vida! – ele não pôde exercitar a fantasia ao descrever seu próprio "tédio eterno" – faltou-lhe tempo!

domingo, 3 de maio de 2009


Meu conceito de liberdade. — Às vezes o valor de uma coisa não se acha naquilo que se obtém com ela, mas naquilo que por ela se paga — aquilo que nos custa. Darei um exemplo. As instituições liberais deixam de ser liberais logo que são alcançadas: não há , depois, nada tão radicalmente prejudicial à liberdade quanto as instituições liberais. Sabe-se muito bem o que trazem consigo: elas minam a vontade de poder, elas são o nivelamento de montes e vales alçado à condição de moral, elas tornam os homens pequenos, covardes e ávidos de prazer — com elas triunfa, a cada vez, o animal de rebanho. Liberalismo: em outras palavras, animalização em rebanho. As mesmas instituições produzem efeitos bastante diferentes enquanto se luta por elas; então realmente promovem a liberdade de maneira poderosa. Observando mais detidamente, é a guerra que produz esses efeitos, a guerra por instituições liberais, que, como guerra, faz perdurarem os instintos iliberais. E a guerra educa para a liberdade. Pois o que é liberdade? Ter a vontade da responsabilidade por si próprio. Preservar a distância que nos separa. Tornar-se mais indiferente à labuta, dureza, privação, até mesmo à vida. Estar disposto a sacrificar seres humanos à sua causa, não excluindo a si mesmo. Liberdade significa que os instintos viris, que se deleitam na guerra e na vitória, predominam sobre outros instintos, os da “felicidade”, por exemplo. O ser humano que se tornou livre, e tanto mais ainda o espírito que se tornou livre, pisoteia a desprezível espécie de bem-estar com que sonham pequenos lojistas, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e outros democratas. O homem livre é guerreiro. — Como se mede a liberdade, tanto em indivíduos com em povos? Conforme a resistência que tem que ser vencida, conforme o esforço que custa ficar em cima. O mais elevado tipo de homens livres deve ser buscado ali onde é continuamente superada a mais alta resistência: a cinco passos da tirania, junto ao limiar do perigo da servidão. Isso é psicologicamente verdadeiro se por “tiranos” compreendemos instintos implacáveis e terríveis, que provocam o máximo de autoridade e disciplina para consigo — Júlio Cézar sendo o tipo mais belo –; isso também é políticamente verdadeiro, basta que se percorra a história. Os povos que tiveram algum valor, que se tornaram de valor, nunca se tornaram assim sob instituições liberais: o grande perigo faz deles algo que merece respeito, o perigo que nos faz conhecer nossos recursos, nossas virtudes, nossas armas e defesas, nosso espírito — que nos compele a ser fortes…Primeiro princípio: há que ter necessidade de ser forte; senão jamais chegamos a sê-lo. — Aqueles grandes viveiros para uma forte, a mais forte espécie de gente que até hoje existiu, as comunidades aristocráticas da espécie de Roma e Veneza, entendiam a liberdade no mesmo exato sentido em que eu entendo a palavra: como algo que se tem e não se tem, que se quer, que se conquista…

sábado, 2 de maio de 2009


A beleza não é acaso. - Também a beleza de uma raça ou de uma família, sua graça e benevolência nos gestos, é algo pelo qual se trabalhou: é, tal como o gênio, a conclusão do trabalho acumulado de gerações. Deve-se ter realizado grandes sacrifícios ao bom gosto, deve-se, por causa dele, ter feito e deixado de fazer muita coisa - o século XVII, na França, é admirável nos dois casos -, deve-se tê-lo tomado como princípio para selecionar companhia, lugar, vestimenta, satisfação sexual, deve-se ter preferido a beleza à vantagem, ao hábito, à opinião, à inércia. Diretriz suprema: nem diante de si mesmo se deve "deixar-se ir". As coisas boas são sobremaneira custosas: e sempre vale a lei de que quem a possui é diferente de quem as conquista. Tudo o que é bom é herdado: o que não é herança é imperfeito, é começo...Em Atenas, na época de Cícero, que se mostra surpreso com isso, os homens e rapazes são bem superiores às mulheres em beleza: mas quanto empenho e trabalho em prol da beleza o sexo masculino não havia demandado de si durante séculos! - Pois não haja engano acerca do método: uma mera disciplina de sentimentos e pensamentos não é quase nada ( - nisso está o grande mal-entendido da formação alemã, que é totalmente ilusória): deve-se primeiro convencer o corpo. A estrita manutenção de gestos significativos e seletos, a obrigatoriedade de viver somente com pessoas que não "se deixam ir", bastam perfeitamente para alguém se tornar significativo e seleto: em duas ou três gerações tudo esta internalizado. É decisivo, para a sina de um povo e da humanidade, que se comece a cultura no lugar certo - não na "alma" (como pensava a funesta superstição dos sacerdotes e semi-sacerdotes) : o lugar certo é o corpo, os gestos, a dieta, a fisiologia, o resto é conseqüência disso...Por isso os gregos permanecem o primeiro acontecimento cultural da história - eles sabiam, eles faziam o que era necessário; o cristianismo, que desprezava o corpo, foi até agora a maior desgraça da humanidade. -

sexta-feira, 1 de maio de 2009


Com frequência a sensualidade precipita o crescimento do amor, de modo que a raiz permanece fraca e é facilmente arrancada.