
Houve tempo em que imaginei que os homens trabalhavam em resposta a uma vaga necessidade interior de se exprimir.
Mas aquela era provavelmente uma teoria capenga, porque muitos dos homens que mais trabalhavam não têm nada a dizer.
Uma hipótese mais plausível começa a brotar agora: os homens trabalham apenas para escapar à deprimente agonia de contemplar a vida – e seu trabalho, assim como o seu ócio, é uma comédia-pastelão, que só lhes serve para que eles escapem da realidade.
Tanto o trabalho como o ócio, normalmente, são ilusões.
Nenhum deles serve a qualquer propósito sólido e permanente.
Mas a vida, despida dessas ilusões, torna-se logo insuportável.
O homem não consegue ficar de mãos abanando, contemplando o seu destino neste mundo, sem ficar desvairado.
Por isto inventa formas de tirar sua mente deste horror.
Trabalha, diverte-se.
Acumula aquele grotesco nada, chamado propriedade.
Persegue aquela piscadela esquiva da fama.
Constitui uma família e dissemina a sua maldição sobre ela.
E, todo o tempo, a coisa que o move é o desejo de perder-se de si, de esquecer-se de si, e de escapar à tragicomédia que é ele próprio.
Fundamentalmente, a vida não vale a pena ser vivida.
Assim, ele cria artificialidades para fazê-la parecer que vale.
E também por isto erige uma espalhafatosa estrutura para esconder o fato de ela não valer.
Talvez esta conversa de agonias e tragicomédias possa desviar a atenção do leitor.
O fato básico sobre a existência humana não é o de que seja uma tragédia, mas o de que é uma chatice.
Não é um tanto uma guerra, mas uma permanente posição de sentido.
A objeção a ela não é a de que seja predominantemente penosa, mas da de que lhe falta sentido.
O que a espécie terá pela frente?
Os próprios teólogos não conseguem ver nada, exceto um vazio cinzento com alguns fogos de artifício irracionais no fim.
Mas existe uma coisa chamada progresso humano. É verdade.
É o progresso que permite a um homicida sair da casa de detenção para a cadeia, e da cadeia para a cela da morte.
Toda geração experimenta o mesmo intolerável fastio.
Falo como um daqueles de quem se poderia dizer, estatisticamente, que levou uma vida feliz.
Trabalho até dizer chega, mas o trabalho é mais agradável para mim do que qualquer coisa que eu possa imaginar.
Não tenho consciência de quaisquer desejos arrebatadores e inatingíveis.
Não quero ter nada que não possa ter.
Mas fico firme em minha conclusão, às portas da senilidade, que tudo não passa de uma grandiosa futilidade e nem ao menos é divertida.
O fim é sempre a vanglória, geralmente sórdida e sem o mínimo toque de nobreza do patético.
Os medíocres continuam. Neles repousa o segredo do que se chama contentamento, a capacidade de deixar o suicídio para o dia seguinte. Eles próprios não têm significado, mas, pelo menos, oferecem uma saída para escapar da paralisante realidade.
O objetivo central da vida é simular a extinção.
Berramos demais contra a grandiloqüência errada.
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