terça-feira, 11 de novembro de 2008


A arquitetura dos homens do conhecimento - Será preciso entendermos um dia, talvez um dia próximo, o que falta acima de tudo nas nossas cidades: tranqüilos e amplos, espaçosos lugares para a reflexão, lugares com longas e altas galerias para o tempo ruim ou demasiado claro, aonde não chegue o barulho dos carros e dos pregoeiros, e onde um refinado decoro proibisse até um padre de reza em voz alta: construções e passeios que, no conjunto, exprimissem o que há de sublime no meditar e no pôr-se de lado. Foi-se o tempo em que a Igreja tinha monopólio da reflexão, em que a vita contemplativa tinha de ser antes vita religiosa: tudo o que a Igreja construiu dá expressão a essa idéia. Eu não sei como tais construções, ainda que fossem despidas de sua finalidade eclesiástica, poderiam nos satisfazer; elas falam uma linguagem demasiado patética e constrita, enquanto casas de Deus e luxuosos pontos de um comércio supraterreno, para que nós, os sem-deus, pudéssemos pensar ali os nossos pensamentos. Queremos ver nós mesmos traduzidos em pedra e planta, queremos passear em nós mesmos, ao andar por essas galerias e jardins.

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