domingo, 26 de outubro de 2008


Caro Ndugu...

Espero que você esteja sentado, porque receio que eu tenha más notícias.
Depois da última vez que escrevi, minha esposa, Helen, sua "mãe adotiva" morreu repentinamente, devido a um coágulo no cérebro.
Foi uma cerimônia muito bonita, e muitas pessoas compareceram.
Jeannie veio de Denver com seu namorado e teve gente que veio lá de Des Moines e de Wichita.
Foi um tributo comovente sob todos os aspectos.
Eu gostaria que você tivesse ido.
Mas, agora que acabou toda aquela agitação, e a fumaça se dissipou, só restamos eu e meus pensamentos aqui neste velho casarão.
Acho que mencionei em minha carta anterior que eu era estatístico da Companhia de Seguros "Woodmen of the World".
Se me dizem a idade de um homem, sua raça, sua profissão local onde reside, seu estado civil e seu histórico médico posso calcular com grande probabilidade quanto tempo esse homem vai viver.
Em meu próprio caso, agora que minha esposa morreu, há 73% de chance de eu morrer nos próximos nove anos desde que eu
não volte a me casar.
Só o que eu sei é que eu tenho que aproveitar da melhor forma o tempo que me resta.
A vida é curta, Ndugu.
E eu não posso perder nem mais um minuto sequer.
Bem, eu não vou enganar você.
Adaptar-me à vida sem a Helen tem sido um desafio.
Mas, acho que teria orgulho de mim.
Sim, esta casa está sob nova administração.
Mas, nem se percebe a diferença.
Naturalmente, às vezes, sou um pouco desatento e esqueço uma ou duas refeições.
Mas, nem vale a pena falar sobre isso para alguém na sua situação.
Helen não ia querer me ver entregue à auto-compaixão. Não mesmo!
Ela ia me dizer para tomar jeito ou dar o fora!
Assim, tento sair o máximo que posso.
Procuro ser ativo, manter a minha rotina.
Isso é muito importante quando ocorrem grandes mudanças na vida.
Certamente, não sou tão bom cozinheiro quanto a Helen era mas lembro de algumas coisas do meu tempo de solteiro.
É bem trabalhoso organizar uma casa e vou acabar vendendo e me mudando para um condomínio.
Menos trabalho com manutenção e tal, sabe?
Mas, por enquanto, eu estou me virando bem.
Ocorreu-me que, na última carta, posso ter sido inconveniente e usado uma linguagem meio negativa em relação à minha falecida esposa.
Mas, você tem que entender que eu estava sob uma forte pressão por causa da minha aposentadoria.
Não vou mentir para você, Ndugu.
Foram semanas difíceis.
E eu me sinto bastante deprimido, sabe, de tempos em tempos.
Eu sinto falta dela.
Sinto falta da minha Helen.
Eu não sabia a sorte que era ter uma esposa como a Helen até ela morrer.
Lembre-se disso, meu rapaz.
Você tem que apreciar aquilo que tem enquanto você ainda tem.

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