
Caro Ndugu...
Meu nome é Warren R. Schmidt, e eu sou o seu novo "pai adotivo".
Vejamos, informações pessoais.
Certo.
Eu moro em Omaha, Nebraska, meu irmão mais velho, Harry, mora em Roanoke, Virginia com sua esposa, Estelle.
Harry perdeu uma perna há dois anos atrás em conseqüência da diabetes.
Eu tenho 66 anos, e aposentei-me recentemente.
Eu era o vice-presidente assistente da companhia de seguros Woodmen of the World.
E, simplesmente, fui substituído por um garoto que...
Tudo bem, talvez ele tenha algum conhecimento teórico e seja capaz de inserir alguns números no computador, mas está na cara que não sabe porcaria nenhuma sobre estimativa de risco do mundo real.
Nem sobre como administrar um departamento. Sujeitinho metido!
Seja como for...
Alguém de 66 anos deve parecer bem velho para um menino como você.
A verdade é que, pra mim também, parece bem velho!
Quando olho no espelho e vejo as rugas ao redor dos meus olhos a pele flácida do meu pescoço, os pêlos nas minhas orelhas e as veias nos meus tornozelos não consigo acreditar que seja eu mesmo.
Quando eu era criança, eu pensava que talvez eu fosse especial...
Que, de alguma forma, o destino me escolhera para ser um grande homem.
Não como Henry Ford ou Walt Disney, ou alguém do gênero mas alguém, sabe, "semi-importante".
Eu sou formado em Administração e Estatística.
Planejava abrir meu próprio negócio e fazer dele uma grande corporação.
Vê-la tornar-se pública.
Talvez chegar entre os 500 melhores.
Eu ia ser um desses caras sobre os quais a gente lê.
Mas, de alguma forma não foi isso o que aconteceu.
Mas, lembre-se, eu tinha um ótimo cargo na Woodmen e tinha uma família para sustentar.
Eu não podia pôr em risco a segurança deles.
Helen...minha esposa não permitiria isso.
Mas, e a minha família?
Você pode se perguntar?
E minha esposa e minha filha?
Elas não me dão todo o orgulho e a satisfação que eu poderia querer?
Helen e eu estamos casados há 42 anos.
Ultimamente, todas as noites eu me faço a mesma pergunta:
"Quem é esta velha que mora na minha casa?"
Por que é que tudo o que ela faz me irrita?
Como o hábito de tirar as chaves da bolsa bem antes de chegar ao carro.
E de desperdiçar nosso dinheiro com suas coleções ridículas.
E de jogar comida fora em perfeito estado só porque o prazo de validade venceu.
E a obsessão dela...
A obsessão de provar novos restaurantes.
Bufê de Frutos do Mar.
Vamos lá no domingo.
E o modo como me corta quando tento falar.
E detesto o modo como ela se senta.
E também o cheiro dela.
Durante anos, ela insistiu para que eu me sentasse ao urinar.
Prometer levantar a tampa, enxugar a beirada e abaixar de novo não bastou para ela.
Mas, aí, tem a Jeannie.
Nossa única filha.
Aposto que ia gostar de você.
Ela curte muito idiomas diferentes culturas diferentes e tal.
Ela se virava muito bem em alemão.
Ela sempre será a minha garotinha.
Ela mora em Denver, portanto, já não a vemos tanto.
Naturalmente, nós nos falamos por telefone a cada duas semanas.
Às vezes, ela passa os feriados aqui, mas não tanto quanto gostaríamos.
Ela tem um cargo de responsabilidade em uma firma de computadores de alta tecnologia.
Portanto, é difícil para ela poder viajar.
Recentemente, ela ficou noiva.
Então, imagino que agora nós veremos ainda menos.
O nome do cara é Randall Hertzel.
Ele trabalha com vendas de alguma coisa.
A Jeannie não está mais na flor da idade mas acho que ela podia ter arrumado coisa melhor.
Ele não está à altura.
Não à altura da minha menina.
Agora, vou fechar a carta e pôr no correio.
Eu fico aqui contando coisas e você, na certa, quer ir logo descontar o cheque e comprar alguma coisa pra comer.
Então, vá com calma e boa sorte em todos os seus empreendimentos.
Atenciosamente...
Warren Schmidt.