domingo, 13 de abril de 2008


Dentro do grande silêncio. — Aqui está o mar, aqui podemos esquecer a cidade. Os seus sinos ainda tocam neste momento a Ave Maria — esse ruído sombrio e tolo, porém doce, no cruzamento do dia com a noite —, mas apenas por mais um instante! Agora tudo se cala! O mar se estende pálido e cintilante, não pode falar. O céu traz seu eterno e silencioso espetáculo vespertino em cores rubras, verdes e amarelas, não pode falar. As pequenas falésias e recifes que entram no mar, como que buscando o local mais solitário, nenhum deles pode falar. Essa mudez enorme, que subitamente nos toma, é bela e aterradora, diante dela o coração se inflama. — Oh, a hipocrisia dessa muda beleza! Como poderia falar bem, e mal também, se apenas quisesse! Sua língua atada e a sofredora ventura em seu rosto são uma perfídia, querem zombar da nossa simpatia! — Pois seja! Não me envergonho de ser a zombaria de tais poderes. Mas tenho compaixão de você, natureza, porque tem de silenciar, ainda quando é apenas sua malícia que lhe prende a língua: sim, tenho compaixão de você por sua malícia! — Ah, faz-se ainda mais silêncio, e novamente se inflama o meu coração: apavora-se ante uma nova verdade, também não pode falar, ele próprio zomba juntamente, se a boca exclama algo nessa beleza, ele próprio desfruta sua doce maldade em silenciar. A fala, e até o pensamento, tornam-se para mim odiosos: não escuto o erro, a ilusão, o espírito delirante a rir por trás de cada palavra? Não tenho que zombar de minha compaixão? Zombar de minha zombaria? — Oh, mar! Oh, noite! Vocês são maus instrutores! Ensinam o ser humano a parar de ser humano! Deve ele entregar-se a vocês? Deve tornar-se, como são agora, pálido, brilhante, mudo, imenso, repousando em si mesmo? Elevado sobre si mesmo?

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