quarta-feira, 30 de abril de 2008


A música e a noite. - O ouvido, o orgão do medo, pôde desenvolver-se tanto como se desenvolveu apenas na noite e na penumbra de cavernas e bosques sombrios, consonante o modo de viver da época do medo, isto é, a mais longa época da humanidade: no claro, o ouvido não é tão necessário. Daí o caráter da música, uma arte da noite e da penumbra.

terça-feira, 29 de abril de 2008


You ain't gonna believe this, but you used to fit right here.
I'd hold you up to say to your mother, "this kid's gonna be the best kid in the world. This kid's gonna be somebody better than anybody I ever knew."
And you grew up good and wonderful. It was great just watching you, every day was like a privilige.
Then the time come for you to be your own man and take on the world, and you did. But somewhere along the line, you changed. You stopped being you.
You let people stick a finger in your face and tell you you're no good.
And when things got hard, you started looking for something to blame, like a big shadow.
Let me tell you something you already know.
The world ain't all sunshine and rainbows.
It's a very mean and nasty place and I don't care how tough you are it will beat you to your knees and keep you there permanently if you let it.
You, me, or nobody is gonna hit as hard as life. But it ain't about how hard ya hit. It's about how hard you can get it and keep moving forward. How much you can take and keep moving forward. That's how winning is done!
Now if you know what you're worth then go out and get what you're worth. But ya gotta be willing to take the hits, and not pointing fingers saying you ain't where you wanna be because of him, or her, or anybody!
Cowards do that and that ain't you! You're better than that! I'm always gonna love you no matter what.
No matter what happens. You're my son and you're my blood. You're the best thing in my life.
But until you start believing in yourself, ya ain't gonna have a life.

segunda-feira, 28 de abril de 2008


A lição dos retratos. - Observando uma série de retratos de nós mesmos, do final da infância à idade adulta, somos agradavelmente surpreendidos pela descoberta de que o homem se parece mais com a criança do que com o jovem: e que, provavelmente em consonância com esse fato, sobreveio nesse ínterim uma temporária alienação do caráter básico, à qual novamente se impôs a força acumulada e concentrada do homem adulto. A esta percepção corresponde outra, a de que todas as influências das paixôes, dos mestres, dos acontecimentos políticos, que nos arrastam na juventude, aparecem depois novamente reduzidas a uma medida fixa: sem dúvida, continuam a viver e atuar em nós, mas a sensibilidade e as opniões básicas predominam e as usam como fontes de energia, não mais como reguladores, porém, como ocorre aos vinte anos. De modo que também o pensar e sentir do homem adulto parece novamente mais conforme ao de sua infância - e esse fato interior se expressa naquele exterior, mencionado acima.

quinta-feira, 24 de abril de 2008


Palavras de má reputação. - Fora com as palavras "otimismo" e "pessimismo", utilizadas até à saciedade! Pois cada vez mais faltam motivos para empregá-las: apenas os tagarelas ainda têm inevitável necessidade delas. Pois por que desejaria alguém no mundo ser otimista, se não tiver que defender um deus que deve ter criado o melhor dos mundos, caso ele mesmo seja o bem e a perfeição - mas que ser pensante ainda necessita da hipótese de um deus? - No entanto, falta igualmente qualquer motivo para uma profissão de fé pessimista, se não houver interesse em irritar os advogados de Deus, os teólogos ou os filósofos teologizantes, afirmando vigorosamente o contrário: que o mal governa, que o desprazer é maior que o prazer, que o mundo é uma obra malfeita, a manifestação de uma perversa vontade de vida. Mas quem se importa ainda com teólogos - excetuando os teólogos? - Deixando de lado a teologia e o combate que se faz a ela, fica evidente que o mundo não é nem bom nem mau, e tampouco o melhor ou pior, e os conceitos "bom" e "mau" só tem sentido em relação aos homens, e mesmo aí talvez não se justifiquem, do modo como são habitualmente empregados: em todo caso, devemos nos livrar tanto da concepção do mundo que o invectiva como daquela que o glorifica.

quinta-feira, 17 de abril de 2008


Pessoas solitárias. - Existem pessoas tão habituadas a estar só consigo mesmas, que não se comparam absolutamente com outras, mas, com disposição alegre e serena, em boas conversas consigo e até mesmo sorrisos, continuam tecendo sua vida-monólogo. Se as levamos a se comparar com outras, tendem a uma cismadora subestimação de si mesmas : de modo que devem ser obrigadas a reaprender com os outros uma opinião boa e justa sobre si : e também dessa opinião aprendida quererão deduzir e rebaixar alguma coisa. - Portanto, devemos conceder a certos indivíduos a sua solidão e não ser tolos a ponto de lastimá-los, como freqüentemente sucede.

Foto - Segunda-feira, meio dia, centro do Rio de Janeiro; muita classe ao se tomar uma cerveja de terno e gravata.

quarta-feira, 16 de abril de 2008


Tenho uma pergunta para ti só, meu irmão. Arrojo-a como uma sonda à tua alma, afim de lhe conhecer a profundidade.
És moço e desejas ter filhos e matrimônio. Eu, porém, pergunto: serás tu homem que tenha o direito de desejar um filho?
Serás tu vitorioso, o vencedor de ti mesmo, o soberano dos sentidos, o dono das tuas virtudes?
É isso o que eu te pergunto.
Ou será que falam ao teu desejo a besta e a necessidade física, ou o afastamento, ou a discórdia consigo mesmo?
Eu quero que a tua vitória e a sua liberdade suspirem por um filho. Deves erigir monumentos viventes à tua vitória e à tua libertação.Deves construir qualquer coisa que te seja superior.
Primeiro que tudo, porém, é preciso que tenhas construído a ti mesmo,bem feito de corpo e alma.
Não deves só reproduzir-te, mas exceder-te! Sirva-te para isso o jardim do matrimônio!
Deves criar um corpo superior, um primeiro movimento, uma roda que gire sobre si; deves criar um criador.
Matrimônio: chamo assim, a vontade de dois criarem um , que seja mais do que aqueles que o criaram. O matrimônio é o respeito recíproco: respeito recíproco dos que coincidem em tal vontade. Seja este o sentido e a verdade do teu matrimônio; mas isso a que os que estão demais, os supérfluos, chamam matrimônio, isso como se há de chamar?
Ai! Que pobreza de alma entre dois! Que imundície de alma entre dois! Que miséria de conformidade entre dois! Que mísera comformidade entre dois!
A tudo isso chamam de matrimônio, e dizem que contraem estas uniões no céu!
Pois bem! Eu não quero esse céu dos supérflulos. Não; eu não quero essas bestas presas com redes divinas!
Fique-se também por lá bem longe de mim esse Deus que vem coxeando abençoar aquilo que não uniu!
Não vos riais de semelhantes matrimônios!
Que filho não teria razão para chorar por causa de seus pais?
Certo homem me pareceu digno e sensato para o sentido da terra, mas, quando vi a mulher dele, a terra pareceu-me moradia de insensatos.
Sim; queria que a terra se convulsionasse quando se acasalam um santo e uma pata.
Tal outro partiu como herói em busca de verdades e não trouxe por colheita senão uma mentira engalanada. Chamam isso o seu matrimônio.
Este era frio nas suas relações e escolhia ponderadamente; mas de uma só vez transtornou para sempre a sua sociedade. A isso chama o seu matrimônio.
Aquele procurava uma serva com virtudes de um anjo; mas daí a pouco tornou-se servente de uma mulher, e agora precisava ele torna-se anjo.
Vejo agora todos os compradores muito senhores de si e com olhos astutos; mas até o mais astuto compra sua mulher às cegas.
A muitas loucuras pequenas chamais o vosso amor. E o vosso matrimônio termina muitas loucuras pequenas, para as tornar uma loucura grande.
O vosso amor à mulher e o amor da mulher pelo homem, oh, seja compaixão para deuses dolentes e ocultos! Duas bestas, porém, quase sempre se adivinham. O vosso melhor amor, contudo, ainda não é mais do que uma imagem extasiada e um ardor doloroso. É um facho que vos deve iluminar por caminhos superiores.
Um dia deverá o vosso amor elevar-se acima de vós mesmos!
Aprendei, pois, primeiro a amar! Por isso vos foi preciso beber o amargo cálice do vosso amor.
Há amargura no cálice do melhor amor; assim vos faz desejar o Übermensch; assim tendes sede do criador.
Sede do criador, seta e deseja do Übermensch; diz-me, meu irmão, é essa a tua vontade do matrimônio? Santa é pra mim tal vontade, santo tal matrimônio.

domingo, 13 de abril de 2008


Dentro do grande silêncio. — Aqui está o mar, aqui podemos esquecer a cidade. Os seus sinos ainda tocam neste momento a Ave Maria — esse ruído sombrio e tolo, porém doce, no cruzamento do dia com a noite —, mas apenas por mais um instante! Agora tudo se cala! O mar se estende pálido e cintilante, não pode falar. O céu traz seu eterno e silencioso espetáculo vespertino em cores rubras, verdes e amarelas, não pode falar. As pequenas falésias e recifes que entram no mar, como que buscando o local mais solitário, nenhum deles pode falar. Essa mudez enorme, que subitamente nos toma, é bela e aterradora, diante dela o coração se inflama. — Oh, a hipocrisia dessa muda beleza! Como poderia falar bem, e mal também, se apenas quisesse! Sua língua atada e a sofredora ventura em seu rosto são uma perfídia, querem zombar da nossa simpatia! — Pois seja! Não me envergonho de ser a zombaria de tais poderes. Mas tenho compaixão de você, natureza, porque tem de silenciar, ainda quando é apenas sua malícia que lhe prende a língua: sim, tenho compaixão de você por sua malícia! — Ah, faz-se ainda mais silêncio, e novamente se inflama o meu coração: apavora-se ante uma nova verdade, também não pode falar, ele próprio zomba juntamente, se a boca exclama algo nessa beleza, ele próprio desfruta sua doce maldade em silenciar. A fala, e até o pensamento, tornam-se para mim odiosos: não escuto o erro, a ilusão, o espírito delirante a rir por trás de cada palavra? Não tenho que zombar de minha compaixão? Zombar de minha zombaria? — Oh, mar! Oh, noite! Vocês são maus instrutores! Ensinam o ser humano a parar de ser humano! Deve ele entregar-se a vocês? Deve tornar-se, como são agora, pálido, brilhante, mudo, imenso, repousando em si mesmo? Elevado sobre si mesmo?

sábado, 12 de abril de 2008


A maioria dos homens encaram a coisa como uma questão de propriedades pessoais.
Dois touros lutando pela vaca. Mas é muito comum o perdedor ficar com a vaca. Instinto maternal? Carteira mais recheada? Piroca mais grossa? Sabe lá Deus o quê... Nenhum homem pode jamais chamar uma mulher de sua. A gente nunca é dono delas, só tomamos de empréstimo por algum tempo. O motivo de uma mulher largar um homem é outro cara. Negro, branco, amarelo ou vermelho. Guarda essa regra e vai sempre estar protegido: uma fêmea raramente se afasta de uma vítima sem ter outra à mão.
Por que perder tempo com ciúmes, então? Por que não mandar tudo à merda?
Deixar pra lá? Se mudar. Os dois que fiquem juntos, se quiserem.
No fim todo homem cansa de foder sempre a mesma mulher.
Que diabos. Uma buceta e um cú são só isso mesmo, não se pode fazer mais nada que isso com eles.

quinta-feira, 10 de abril de 2008


Defeito principal dos homens ativos. - Aos homens ativos falta habitualmente a atividade superior, quero dizer, a individual. Eles são ativos como funcionários, comerciantes, eruditos, isto é, como representantes de uma espécie, mas não como seres individuais e únicos; neste aspecto são indolentes. – A infelicidade dos homens ativos é que sua atividade é quase sempre um pouco irracional. Não se pode perguntar ao banqueiro acumulador de dinheiro, por exemplo, pelo objetivo de sua atividade incessante: ela é irracional. Os homens ativos rolam tal como pedra, conforme a estupidez da mecânica. – Todos os homens se dividem, em todos os tempos e também hoje, em escravos e livres; pois aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa que seja: estadista, comerciante, funcionário ou erudito.

quarta-feira, 9 de abril de 2008


Solicitar compaixão como sinal de presunção. - Há pessoas que, ao se encolerizar e ferir os outros, exigem primeiramente que não as levem a mal e, em segundo lugar, que tenham compaixão delas, por estarem sujeitas a paroxismos tão violentos. A tal
ponto chega a presunção humana.

domingo, 6 de abril de 2008


Felicidade e cultura. - A visão do ambiente de nossa infância nos comove: a casa com jardim, a igreja com túmulos, o lago e o bosque - essas coisas sempre revemos como sofredores. A compaixão para conosco nos assalta, pois o quanto sofremos desde então! E ali tudo permanece tão sereno, tão eterno: apenas nós somos tão diferentes, tão agitados; e reencontramos algumas pessoas em que o tempo não cravou seus dentes mais do que num carvalho: camponeses, pescadores, moradores da floresta - são os mesmos. - Comoção, autocompaixão face à cultura inferior é a marca da cultura superior; o que mostra que a felicidade, em todo o caso, não foi aumentada por ela. Quem quiser colher felicidade e satisfação na vida, que evite sempre a cultura superior.

sexta-feira, 4 de abril de 2008


Esprit fort [espírito forte]. - Comparado àquele que tem a tradição ao seu lado e não precisa de razões para seus atos, o espírito livre é sempre débil, sobretudo na ação; pois ele conhece demasiados motivos e pontos de vista, e por isso tem a mão insegura, não exercitada. Que meios existem para torná-lo relativamente forte, de modo que ao menos se afirme e não pereça inutilmente? Como se forma o espírito forte(esprit fort)? Este é, num caso particular, o problema da produção do gênio. De onde vem a energia, a força inflexível, a perseverança com que álguem, opondo-se à tradição, procura um conhecimento inteiramente individual do mundo?

quarta-feira, 2 de abril de 2008


Amigos. - Apenas pondere consigo mesmo como são diversos os sentimentos, como são divididas as opiniões, mesmo entre os conhecidos mais próximos; e como até mesmo opiniões iguais têm, nas cabeças de seus amigos, posição ou força muito diferente da que têm na sua; como são múltiplas as ocasiões para o mal-entendido e para a ruptura hostil. Depois disso, você dirá a si mesmo: como é inseguro o terreno em que repousam as nossas alianças e amizades, como estão próximos os frios temporais e o tempo feio, como é isolado cada ser humano! Se alguém percebe isso, e também que todas as opiniões, sejam de que espécie e intensidade, são para o seu próximo tão necessárias e irresponsáveis como os atos, se descortina essa necessidade interior das opiniões, devida ao indissolúvel entrelaçamento de caráter, ocupação, talento e ambiente - talvez se livre da amargura e aspereza de sentimentos que levou aquele sábio a gritar: "Amigos, não há amigos!". Esta pessoa dirá antes a si mesma: Sim, há amigos, mas foi o erro, a ilusão acerca de você que os conduziu até você; e eles devem ter aprendido a calar, a fim de continuar seus amigos, pois quase sempre tais laços humanos se baseiam em que certas coisas jamais serão ditas nem tocadas: se essas pedrinhas começam a rolar, porém, a amizade segue atrás e se rompe. Haverá homens que não seriam fatalmente feridos, se soubessem o que seus mais íntimos amigos sabem no fundo a seu respeito? - Conhecendo a nós mesmos e vendo o nosso ser como um esfera cambiante de opiniões e humores, aprendendo assim a menosprezá-lo um pouco, colocamo-nos novamente em equilíbrio com os outros. É verdade, temos bons motivos para não prezar muito nossos conhecidos, mesmo os grandes entre eles; mas igualmente bons motivos para dirigir esse sentimento para nós mesmos. - Então suportemos uns aos outros, assim como suportamos a nós mesmos; e talvez chegue um dia, para cada um, a hora feliz em que dirá:
"Amigos, não há amigos" - disse o sábio moribundo;
"Inimigos, não há inimigos" - digo eu, o tolo vivente.

terça-feira, 1 de abril de 2008


Achilles: Vá para casa, príncipe. Beba um pouco de vinho, faça amor com sua esposa. Amanhã, nós teremos nossa guerra.

Hector: Você fala de guerra como se fosse um jogo. Mas quantas esposas esperam nos portões em Tróia por seus maridos que elas nunca mais verão de novo?

Achilles: Talvez seu irmão possa confortá-las. Ouvi dizer que ele é bom em seduzir esposas alheias.

Hector: Vou fazer um pacto com você. Com os deuses como nossas testemunhas...deixe que o vencedor permita ao
perdedor, todos os devidos rituais fúnebres.

Achilles: Não há pactos entre leões e homens.

Achilles: Você não terá olhos essa noite. Não terá orelhas ou língua. Você irá vagar no submundo, cego, surdo e mudo, e todos os mortos saberão: Esse é Hector, o tolo que achou ter matado Aquiles.

Achilles: Levante-se Príncipe de Tróia. Levante-se. Não deixarei que uma pedra tire minha glória.