sexta-feira, 20 de maio de 2011


O mundo está cheio de nós.
Não pertencemos ao reino.
O mundo quer ser invisível.
A flor, enjoada de nosso lirismo até a raiz, pretende consumir no silêncio o nome que lhe demos.
A integridade do mineral reage à nossa forma em desintegração.
A alma compacta do animal se incompatibiliza com as numerosas almas transitórias de cada homem, fluidas
ou pegajosas, insinuantes ou bloqueadas de súbito, mas interminavelmente excêntricas.
O mundo está cheio de nós. Vê-se à luz do sistema solar o ridículo de nosso tempo; o curto compasso de
nossos metrônomos.
Quando a moabita apanhava espigas de milho no campo de Booz, as constelações viram o fulgor do atol de Bikini.
Hesíodo começou a frase cujo final se cristaliza agora no inconsciente do menino poeta.
A primeira roda mal se encaixou na engrenagem do computador.
A pressa da nossa morte envergonha o universo; quem mede o que não existe será triturado desde a idade da razão.
O mundo está cheio da nossa razão.
A vida é o que existe e não é razoável.
Só o homem é indefensavelmente razoável na atonalidade extraordinária de tudo.
Separamos o orgânico do inorgânico.
O morto do vivo.
O quadrado do círculo.
O bom do mau.
O feio do bonito.
O alegre do triste.
O de dentro do de fora.
O mundo está cheio de nossa alegria e de nossa tristeza.
Estamos amputados do contexto, medindo, denominando, classificando.
O universo, que antes nos hospedou com indiferença, passou ao desprezo e talvez ainda chegue à repugnância final.
Nossas lágrimas não fecundam; o hálito de nosso riso não vivifica; talvez o nosso cadáver interesse ao cosmo, nada mais.
O cosmo está cheio de nós.
Pelo menos, por força de nossa incompetência, conseguimos ficar indesejáveis.
Os ratos nos espreitam com desconfiança. O gênio do homem nasce do terror.
O mar talvez tente expulsar-nos da praia; o propósito do sol é extinguir-nos; um dia, não suportando mais o vento,
entraremos em processo de erosão.
O boi e o cavalo estão cheio de nós, o que lhes resta de nobreza.
Humaniza-se o porco em nossa intimidade e engorda.
O pássaro tudo faz para tornar-se invisível na gaiola.
A noite quer apagar nossos fachos; o dia quer redimir nossas galerias.
O cipreste hostiliza nosso rito funerário.
Na sala de Conselho de Ministros o arbusto está ausente.
A árvore jamais nos tomaria por símbolo de nada.
A ciência parte sempre da árvore abstrata. Só o louco deseja ser uma árvore.
Os melhores entre nós estão mortos ou vão morrer cedo.
Os piores ocupam com fervor o púlpito, a tribuna, a cátedra.
Somos os aflitos, os neuróticos, os enfermiços, os aduncos, os reenchidos de nós mesmos.
A presunção, casca de nossa ferida, coça sem parar.
Somos os chatos da Via-Láctea.
E a Via-Láctea está cheia de nós.
Ah, como são humanamente áridos os nossos símbolos! Como fabricamos dia a dia a humilhação e a violência do nosso exílio.
Como é agônico e mendigo nosso amor! Dividimos, para reinar, as cores do espectro, as forças da matéria, a unidade da vida:
somos a aristocracia do imaginário e da moral.
O mundo está cheio da nossa moral infectada.
Quem estiver satisfeito com a nossa moral atire beijos aos legisladores.
Os gatos se contagiam de nós -- e não prestam.
Os cães se acovardam ou se fazem brutais -- e não prestam.
As feras sentem asco de nossos olhos quadriculados.
O mundo quer ficar sozinho de nós.
As moscas nos preferem depois do óbito.
Construímos um altar; dos restos do altar fizemos um castelo; com as pedras do castelo estruturamos a fábrica;
dos despojos da fábrica talvez façamos outro altar.
Ao Supremo Tecnocrata.
Nossa cultura é uma empreitada de demolições. Mas somos pobres e utilizamos o material arruinado.
O mundo aspira a uma desumanização integral de vales e montanhas e mares e ilhas e rios.
Sem os homens, o mato caritativo cobrirá os nossos nomes.
O ar está cheio de nós.
O fogo está cheio de nós.
O chão está cheio de nós.
Não demos certo.
Inventamos a missão absurda.
O mundo está cheio de mim.
Talvez ainda me sobre, última complacência, colhida na concha trêmula da mão, um gole de água.

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