quinta-feira, 15 de setembro de 2011


Eu, o Lobo da Estepe, vago errante
pelo mundo de neve recoberto;
um corvo sai de uma árvore, adejando,
mas não há corças por aqui, nem lebres!
Vivo ansiando por achar a corça,
ah! se eu desse com uma!
Tê-lá em meus dentes, entre as minhas garras,
nada seria para mim tão belo.
Havia de tratá-la tão cordial,
de cravar-lhe nas ancas os meus dentes,
beber-lhe o sangue até a saciedade
a uivar depois na noite solitário.
Contentava-me mesmo com uma lebre!
Na noite sabe bem a carne flácida.
Por que de mim há de afastar-se tudo
quanto faz esta vida mais alegre?
Em minha cauda o pelô está grisalho
e também já não vejo as coisas nítidas;
há muito que morreu a minha esposa
e vivo a errar sonhando corças,
ansiando lebres,
ouço o vento soprar na noite fria
com neve aplaco o fogo da garganta
e levo para o diabo a minha alma.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Existem graus de loucura, e por mais louco que você seja, mais óbvio será para as outras pessoas. A maior parte da minha vida eu escondi minha loucura dentro de mim, mas ela está lá. Por exemplo, algumas pessoas falarão para mim sobre isso ou aquilo e enquanto essas pessoas estão me entediando com suas generalidades banais, eu irei imaginá-las com a cabeça, dele ou dela, descansando sob a guilhotina, ou vou imaginá-las em uma enorme frigideira, fritando, enquanto me olham com seus olhos assustados. Em situações reais como essas, eu provavelmente tentaria um resgate, mas enquanto elas estão falando comigo eu não consigo imaginar isso. Ou, com um humor melhor, eu poderia imaginá-las andando de bicicleta longe de mim. Eu simplesmente tenho problemas com seres humanos. Animais, eu amo. Eles não mentem e raramente tentam atacá-lo. Às vezes eles são espertos, mas isso é permitido. Por quê?

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O que tem me mantido vivo hoje é a ilusão ou a esperança dessa coisa, "esse lugar confuso", o amor um dia. E de repente te proíbem isso. Eu tenho me sentido muito mal vendo minha capacidade de amar sendo destroçada, proibida, impedida.

sábado, 27 de agosto de 2011

Quem tem os desejos de uma alma elevada e exclusiva e raramente encontra sua mesa posta, seu alimento pronto, estará sempre em grande perigo; mas esse perigo é hoje extraordinário. Lançado numa época ruidosa e plebéia, com a qual não quer partilhar o mesmo prato, ele pode facilmente perecer de fome e sede ou, caso finalmente "se sirva" - de súbita náusea. - Todos nós, é provável, já nos sentamos junto a mesas a que não pertencíamos; e precisamente os mais espirituais entre nós, os mais difíceis de serem alimentados, conhecem aquela perigosa dispepsia, que vem de uma súbita percepção e desilusão da comida e dos vizinhos de mesa - a náusea da sobre-mesa.

domingo, 3 de julho de 2011

A maioria da minha juventude e vida adulta foi em quartos minúsculos, confortável, olhando as paredes, as sombras rasgadas, as maçanetas dos armários. Eu sabia da fêmea e a desejava, mas eu não queria tentar atravessar as dificuldades para consegui-la. Eu sabia do dinheiro, mas de novo, como com a fêmea, eu não queria fazer as coisas necessárias para consegui-lo. Tudo o que eu queria era suficiente para um quarto e para algo para beber. Eu bebia sozinho, geralmente na cama, com todas as persianas fechadas. Às vezes eu ia aos bares checar os tipos, mas os tipos eram os mesmos – não muito e freqüentemente menos do que aquilo.

sábado, 2 de julho de 2011

Na separação. – Não é no modo como uma alma se aproxima de outra, mas em como se afasta dela que reconheço seu parentesco e relação com a outra.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Agora, se você tivesse que ensinar escrita criativa, ele perguntou, o que você lhes diria?

eu lhes diria para terem um caso de amor
fracassado, com hemorróidas, dentes podres
e beber vinho barato,
para evitarem a ópera e o golfe e o xadrez,
seguirem trocando a guarda de suas
camas de parede em parede
e depois eu lhes diria para terem
outro caso de amor fracassado
e nunca usar uma fita de seda na máquina
de escrever,
evitar os piqueniques em família
ou serem fotografados em um jardim coberto de
rosas;
para lerem Hemingway apenas uma vez,
pularem Faulkner
ignorarem Gogol
olharem fixo para as fotos de Gertrudes Stein
e ler Sherwood Anderson na cama
comendo biscoitos Ritz água e sal,
perceberem que as pessoas que não param
de falar sobre a liberação sexual,
na verdade estão mais assustadas do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs debulhar o
órgão no rádio enquanto estão
fumando um Bull Durham no escuro
numa cidade estranha
restando apenas um dia pago de aluguel
após terem desistido de tudo
amigos, parentes e empregos.
jamais se considerem superiores e/
ou dentro da média
nem nunca tentem sê-lo.
tenham um outro caso de amor fracassado.
observem uma mosca sobre uma cortina de verão.
jamais tentem ter sucesso.
não joguem sinuca.
deixem que uma fúria legítima tome conta de vocês
quando seus carros estiverem com um pneu no chão.
tomem vitaminas mas não levantem pesos nem corram.
então depois disso tudo
revertam o processo.
tenham um bom caso de amor.
e a coisa
que vocês talvez aprendam
é que ninguém sabe nada -
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira no jardim nem a Estrela Polar.
e se por acaso vocês me pegarem
ensinando numa classe de escrita criativa
e me lerem este poema
eu lhes darei um A com louvor
bem no olho
do cu.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Os homens (diz uma antiga máxima grega) são atormentados pelas ideias que têm das coisas, e não pelas próprias coisas. Haveria um grande ponto ganho para o alívio da nossa miserável condição humana se pudéssemos estabelecer essa asserção como totalmente verdadeira. Pois, se os males só entraram em nós pelo nosso julgamento, parece que está em nosso poder desprezá-los ou transformá-los em bem. Se as coisas se entregam à nossa mercê, por que não dispomos delas ou não as moldarmos para vantagem nossa? Se o que denominamos mal e tormento não é nem mal nem tormento por si mesmo, mas somente porque a nossa imaginação lhe dá essa qualidade, está em nós mudá-la. E, tendo essa escolha, se nada nos força, somos extraordinariamente loucos de bandear para o partido que nos é o mais penoso e dar às doenças, à indigência e ao desvalor um gosto acre e mau, se lhes podemos dar um gosto bom e se, a fortuna fornecendo simplesmente a matéria, cabe a nós dar-lhe a forma.
Porém vejamos se é possível sustentar que aquilo que denominamos por mal não o é em si mesmo, ou pelo menos que, seja ele qual for, depende de nós dar-lhe outro sabor e outro aspecto, pois tudo vem a ser a mesma coisa. Se a natureza própria dessas coisas que tememos tivesse o crédito de instalar-se em nós por poder seu, ele se instalaria exactamente da mesma forma em todos; pois os homens são todos de uma só espécie e, excepto por algo a mais ou a menos, acham-se munidos de iguais orgãos e instrumentos para pensar e julgar. Mas a diversidade das ideias que temos sobre essas coisas mostra claramente que elas só entram em nós por mútuo acordo: alguém por acaso coloca-as dentro de si com a sua verdadeira natureza, mas mil outros dão-lhes dentro de si uma natureza nova e contrária.

terça-feira, 24 de maio de 2011


Desejo eu aos que me interessam, o sofrimento, a solidão, a enfermidade, as perseguições, o opróbrio. Desejo que conheçam o profundo menosprezo de si próprios, o tormento da sua desconfiança, a angústia da derrota. E não os lastimo, pois que lhes desejo a coisa única capaz de demonstrar se valem ou não: a resistência.

sexta-feira, 20 de maio de 2011


O mundo está cheio de nós.
Não pertencemos ao reino.
O mundo quer ser invisível.
A flor, enjoada de nosso lirismo até a raiz, pretende consumir no silêncio o nome que lhe demos.
A integridade do mineral reage à nossa forma em desintegração.
A alma compacta do animal se incompatibiliza com as numerosas almas transitórias de cada homem, fluidas
ou pegajosas, insinuantes ou bloqueadas de súbito, mas interminavelmente excêntricas.
O mundo está cheio de nós. Vê-se à luz do sistema solar o ridículo de nosso tempo; o curto compasso de
nossos metrônomos.
Quando a moabita apanhava espigas de milho no campo de Booz, as constelações viram o fulgor do atol de Bikini.
Hesíodo começou a frase cujo final se cristaliza agora no inconsciente do menino poeta.
A primeira roda mal se encaixou na engrenagem do computador.
A pressa da nossa morte envergonha o universo; quem mede o que não existe será triturado desde a idade da razão.
O mundo está cheio da nossa razão.
A vida é o que existe e não é razoável.
Só o homem é indefensavelmente razoável na atonalidade extraordinária de tudo.
Separamos o orgânico do inorgânico.
O morto do vivo.
O quadrado do círculo.
O bom do mau.
O feio do bonito.
O alegre do triste.
O de dentro do de fora.
O mundo está cheio de nossa alegria e de nossa tristeza.
Estamos amputados do contexto, medindo, denominando, classificando.
O universo, que antes nos hospedou com indiferença, passou ao desprezo e talvez ainda chegue à repugnância final.
Nossas lágrimas não fecundam; o hálito de nosso riso não vivifica; talvez o nosso cadáver interesse ao cosmo, nada mais.
O cosmo está cheio de nós.
Pelo menos, por força de nossa incompetência, conseguimos ficar indesejáveis.
Os ratos nos espreitam com desconfiança. O gênio do homem nasce do terror.
O mar talvez tente expulsar-nos da praia; o propósito do sol é extinguir-nos; um dia, não suportando mais o vento,
entraremos em processo de erosão.
O boi e o cavalo estão cheio de nós, o que lhes resta de nobreza.
Humaniza-se o porco em nossa intimidade e engorda.
O pássaro tudo faz para tornar-se invisível na gaiola.
A noite quer apagar nossos fachos; o dia quer redimir nossas galerias.
O cipreste hostiliza nosso rito funerário.
Na sala de Conselho de Ministros o arbusto está ausente.
A árvore jamais nos tomaria por símbolo de nada.
A ciência parte sempre da árvore abstrata. Só o louco deseja ser uma árvore.
Os melhores entre nós estão mortos ou vão morrer cedo.
Os piores ocupam com fervor o púlpito, a tribuna, a cátedra.
Somos os aflitos, os neuróticos, os enfermiços, os aduncos, os reenchidos de nós mesmos.
A presunção, casca de nossa ferida, coça sem parar.
Somos os chatos da Via-Láctea.
E a Via-Láctea está cheia de nós.
Ah, como são humanamente áridos os nossos símbolos! Como fabricamos dia a dia a humilhação e a violência do nosso exílio.
Como é agônico e mendigo nosso amor! Dividimos, para reinar, as cores do espectro, as forças da matéria, a unidade da vida:
somos a aristocracia do imaginário e da moral.
O mundo está cheio da nossa moral infectada.
Quem estiver satisfeito com a nossa moral atire beijos aos legisladores.
Os gatos se contagiam de nós -- e não prestam.
Os cães se acovardam ou se fazem brutais -- e não prestam.
As feras sentem asco de nossos olhos quadriculados.
O mundo quer ficar sozinho de nós.
As moscas nos preferem depois do óbito.
Construímos um altar; dos restos do altar fizemos um castelo; com as pedras do castelo estruturamos a fábrica;
dos despojos da fábrica talvez façamos outro altar.
Ao Supremo Tecnocrata.
Nossa cultura é uma empreitada de demolições. Mas somos pobres e utilizamos o material arruinado.
O mundo aspira a uma desumanização integral de vales e montanhas e mares e ilhas e rios.
Sem os homens, o mato caritativo cobrirá os nossos nomes.
O ar está cheio de nós.
O fogo está cheio de nós.
O chão está cheio de nós.
Não demos certo.
Inventamos a missão absurda.
O mundo está cheio de mim.
Talvez ainda me sobre, última complacência, colhida na concha trêmula da mão, um gole de água.

quarta-feira, 16 de março de 2011

It follows that the so called religious are miserable in this life and this is why they invent an afterlife that mirrors the Bible's mythological story. I am happy in this life-no other is needed. I posses quality of life now and do not need quantity later. I take care of my mental and physical health now and earn my rewards by my own volition. The Christian and other religious zealots want endowments without effort in the afterlife, and position themselves in a docile state for it. They self abnegate turn themselves into a dependent conformist and call this the good and spiritual-what idiots! Put simply, if you are happy and joyous in this life, you do not project yourself as a future ghost. If you earn your standards, values and virtues by your own mind now, you will never invent or need a mystical vision to rock your lazy, obtuse ass to sleep. Body builder's against religious zealots is a celebration of creating ourselves out of what we have been made into-now! My body building posing is that celebration. "Let your body be an expression of your glorious reason and indomitable will.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011



Existem dois tipos de sofredores: aqueles que sofrem da falta de vida, e os que sofrem da abundância excessiva da vida.
Eu sempre me posicionei na segunda categoria.
Quando se pensa nisso, quase todo comportamento e atividade humana, são essencialmente, nada diferentes do comportamento animal.
As mais avançadas tecnologias e artefatos levam-nos, no máximo, ao nível do super-chimpanzé.
Na verdade, o hiato entre Platão ou Nietzsche e o humano mediano, é maior do que o que há entre o chimpanzé e o humano mediano.
O reino do verdadeiro espÌrito...o artista verdadeiro, o santo, o filósofo, é raramente alcançado.
Por que tão poucos?
Por que a História e a evolução não são histórias de progresso, mas uma interminável e fútil adição de zeros?
Nenhum valor maior se desenvolveu.
Ora, os gregos, há 3.000 anos, eram tão avançados quanto somos hoje.
Quais são as barreiras que impedem as pessoas de alcançarem, minimamente,
o seu verdadeiro potencial?
A resposta a isso pode ser encontrada em outra pergunta, que é: qual é a característica humana mais universal?
O medo...ou a preguiça?

sábado, 8 de janeiro de 2011

Para melhorar o mundo. – Se as pessoas insatisfeitas, irascíveis e rabugentas fossem impedidas de se reproduzir, a Terra poderia se transformar num jardim de felicidade. – Essa tese faria parte de uma filosofia prática para o sexo feminino.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Eventual nocividade do conhecimento. – A utilidade que a incondicional pesquisa do verdadeiro traz consigo é continuamente demonstrada de tantas formas, que é preciso aceitar sem hesitação a nocividade mais rara e sutil que os indivíduos têm de sofrer por causa dela. Não podemos impedir que ocasionalmente o químico se envenene e se queime nos seus experimentos. – O que vale para o químico, vale para toda a nossa cultura: de que resulta claramente, diga-se de passagem, o quanto ela deve munir-se de bálsamos para queimaduras e de uma constante provisão de antídotos.