segunda-feira, 31 de março de 2008


La donna è mobile
Qual piuma al vento,
Muta d'accento
E di pensiero.

Sempre un amabile,
Leggiadro viso,
In pianto o in riso,
È menzognero.

La donna è mobil
Qual piuma al vento,
Muta d'accento
E di pensier.

E di pensier.
E di pensier.

È sempre misero
Chi a lei s'affida,
Chi le confida
Mal cauto il core.

Pur mai non sentesi
Felice appieno
Chi su quel seno
Non liba amore.

La donna è mobil
Qual piuma al vento,
Muta d'accento
E di pensier.

E di pensier.
E di pensier!



ps: tentando salvar minha afilhada de um futuro musical duvidoso.

domingo, 30 de março de 2008


Os apologistas do trabalho - Na glorificação do "trabalho", nas incansáveis referências à "benção do trabalho", vejo a mesma idéia oculta que há no louvor às ações impessoais e de utilidade geral: a do temor ante o que seja individual. No fundo sente-se agora, à visão do trabalho - entendendo por isso a dura laboriosidade desde a manhã até a noite --, que semelhante trabalho é a melhor polícia, que ele detém as rédeas de cada um e sabe impedir o desenvolvimento da razão, dos anseios, do gosto pela independência. Pois ele despende muita energia nervosa, subtraindo-a à reflexão, à ruminção, aos sonhos, às preocupações, ao amor e ao ódio; ele coloca diante da vista um pequeno objetivo e garante satisfações regulares e fáceis. Assim, terá mais segurança uma sociedade em que se trabalha duramente: e hoje se adora a segurança como a divindade suprema. - E Então! Que horror!! Precisamente o "trabalhador" tornou-se um perigo! Pululam os "indivíduos perigosos"! E por trás deles o perigo maior - o indivíduo!

sexta-feira, 28 de março de 2008


Dons. - Numa humanidade altamente desenvolvida como a de hoje, cada um tem da natureza a possibilidade de alcançar vários talentos. Cada qual possui talento nato, mas em poucos é inato ou inculcado o grau de tenacidade, perseverança, energia, para que alguém se torne de fato um talento, isto é, se torne aquilo que é, ou seja, o descarregue em obras e ações.

quinta-feira, 27 de março de 2008


Na prisão. - Minha vista, seja forte ou fraca, enxerga apenas a uma certa distância, e neste espaço eu vivo e ajo, a linha deste horizonte é meu destino imediato, pequeno ou grande, a que não posso escapar. Assim, em torno a cada ser há um círculo concêntrico, que lhe é peculiar. De modo semelhante, o ouvido nos encerra num pequeno espaço, e assim também o tato. É de acordo com esses horizontes, nos quais, como em muros de prisão, nossos sentidos encerram cada um de nós, que medimos o mundo, que chamamos a isso perto e àquilo longe, a isso grande e àquilo pequeno, a isso duro e àquilo macio: a esse medir chamamos "perceber" - e tudo, tudo em si é erro! Conforme a quantidade de experiências e emoções que nos são possíveis em média, num momento determinado, cada qual mede a sua vida, breve ou longa, pobre ou rica, plena ou vazia: e segundo a vida média humana medimos a de todas as demais criaturas - e tudo, tudo em si é erro! Se a nossa visão fosse cem vezes mais aguda para as coisas próximas, o ser humano nos pareceria monstruosamente comprido; sim, pode-se imaginar órgãos que fariam percebê-lo como imensurável. Por outro lado, poderia haver órgãos constituidos de tal forma que sistemas solares inteiros parecessem contraídos e ajuntados como uma única célula: e, para seres de conformação oposta, uma célula do corpo humano poderia apresentar-se como um sistema solar, em movimento, construção e harmonia. Os hábitos de nossos sentidos nos envolveram na mentira e na fraude da sensação: estas são, de novo, os fundamentos de todos os nossos juízos e "conhecimentos" - não há escapatória, não há trilhas ou atalhos para o mundo real! Estamos em nossa teia, nós, aranhas, e, o que quer que nela apanhemos, não podemos apanhar senão justamente o que se deixa apanhar em nossa teia.

segunda-feira, 24 de março de 2008


O andarilho. — Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra — e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem. Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar. Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão — e o dia será quase pior do que a noite. Isso bem pode acontecer ao andarilho, mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando o seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos. Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: — eles buscam a filosofia da manhã.

domingo, 23 de março de 2008


O cristianismo como antigüidade. - Quando, numa manhã de domingo, ouvimos repicarem os velhos sinos, perguntamos a nós mesmos: mas será possível? isto se faz por um judeu crucificado há dois mil anos, que se dizia filho de Deus. Não existe prova para tal afirmação. - Em nossos tempos, a religião cristã é certamente uma antigüidade que irrompe de um passado remoto, e o fato de crermos nessa afirmação - quando normalmente somos tão rigorosos no exame de qualquer pretensão - é talvez a parte mais antiga dessa herança. Um Deus que gera filhos com uma mortal; um sábio que exorta a que não se trabalhe, que não mais se julgue, mas que se atente para os sinais do iminente fim do mundo; uma justiça que aceita o inocente como vítima substituta; alguém que manda seus discípulos beberem seu sangue; preces por intervenções miraculosas; pecados cometidos contra um deus expiados por um deus; medo de um Além cuja porta de entrada é a morte; forma da cruz como símbolo, num tempo que já não conhece a destinação e a ignomínia da cruz - que estremecimento nos causa tudo isso, como um odor vindo de um sepulcro antiqüissimo! Deveríamos crer que ainda se crê nessas coisa?

sábado, 22 de março de 2008


Da origem das religiões. - Como pode alguém perceber a própria opinião sobre as coisas como uma revelação? Este é o problema da origem das religiões: a cada vez havia um homem no qual esse fato foi possível. O pressuposto é que ele já acreditasse em revelações. Um dia ele tem, subitamente, o seu novo pensamento, e o regozijo de uma grande hipótese pessoal, que abrange o mundo e a existência, surge tão fortemente em sua consciência, que ele não ousa sentir-se criador de uma tal felicidade e atribui a seu Deus a causa dela, e também a causa desse novo pensamento: como revelação desse Deus. Como poderia um homem ser autor de uma tal beatitude? - é o que reza a sua dúvida pessimista. E há outras alavancas agindo ocultamente: o indivíduo reforça uma opinião para si mesmo, por exemplo, ao considerá-la uma revelação; ele apaga o hipotético, ele subtrai à crítica, mesmo à dúvida, e torna-a sagrada. Assim nos rebaixamos a não mais do que órgão, é certo, mas nosso pensamento acaba por triunfar, como pensamento de Deus - esta sensação, de com isso permanecer enfim vitorioso, sobrepuja a sensação de rebaixamento. Também um outro sentimento atua nos bastidores: quando alguém eleva seu produto acima de si mesmo, aparentemente desconsiderando seu próprio valor, há nisso um júbilo de amor paterno e orgulho paterno, que tudo compensa e mais que compensa.

sexta-feira, 21 de março de 2008


Capacidade para visões. - Ao longo de toda a Idade Média, considerou-se a autêntica e decisiva característica da suprema humanidade a capacidade de ter visões - ou seja, uma profunda pertubação psíquica! E, no fundo, os preceitos de vida medievais de todas as naturezas superiores (dos religiosi [homens religosos]) pretendem tornar os homens capazes de visões! Não surpreende que até em nossa época tenha chegado uma superestimação de indivíduos semipertubados, fantasistas fanáticos, chamados geniais; "eles viram coisas que outros não vêem" - certamente! e isso nos deveria fazer cautelosos em relação a eles, e não crédulos!

quarta-feira, 19 de março de 2008


A crença na inspiração. - Os artistas têm interesse em que se creia nas intuições repentinas, nas chamadas inspirações; como se a idéia da obra de arte, do poema, o pensamento fundamental de uma filosofia, caísse do céu como um raio de graça. Na verdade, a fantasia do bom artista ou pensador produz continuamente, sejam coisas boas, medíocres ou ruins, mas o seu julgamento, altamente aguçado e exercitado, rejeita, seleciona, combina; como vemos hoje nas anotações de Beethoven, que aos poucos juntou as mais esplêndidas melodias e de certo modo as retirou de múltiplos esboços. Quem separa menos rigorosamente e confia de bom grado na memória imitativa pode se tornar, em certas condições, um grande improvisador; mas a improvisação artística se encontra muito abaixo do pensamento artístico selecionado com seriedade e empenho. Todos os grandes foram grandes trabalhadores, incansáveis não apenas no inventar, mas também no rejeitar, eleger, remodelar e ordenar.

segunda-feira, 17 de março de 2008


Serena fecundidade. - Os aristocratas natos do espírito não são muito zelosos; suas criações aparecem e caem da àrvore numa tranqüila tarde de outono, sem que sejam impacientemente desejadas, encorajadas, pressionadas pelo novo. O desejo incessante de criar é vulgar, demonstra fervor, inveja, ambição. Quando se é alguma coisa, não é preciso fazer nada - e contudo se faz muito. Acima do homem "produtivo" há uma espécie mais elevada.

domingo, 16 de março de 2008


A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

sábado, 15 de março de 2008


Sem melodia. - Há pessoas nas quais um constante repousar em si mesmas e uma harmoniosa disposição das faculdades são tão próprios, que lhes repugna qualquer atividade dirigida para um fim. Elas semelham uma música que consiste apenas em acordes harmônicos sustentados por longo tempo, sem mostrar sequer o início de um movimento melódico articulado. Toda movimentação vinda de fora serve apenas para dar imediatamente a seu barco um novo equilíbrio, no lago da consonância harmônica. Em geral as pessoas modernas ficam muito impacientes, ao se defrontar com essas naturezas que nada se tornam, sem que delas se possa dizer que nada são. Mas há estados de espírito em que a sua visão desperta a pergunta inusitada: para que melodia, afinal? Por que não nos basta que a vida se espelhe quietamente num lago profundo? - A Idade Média era mais rica em tais naturezas do que o nosso tempo. Como é raro ainda encontrarmos alguém capaz de seguir vivendo de maneira pacífica e alegre consigo também no torvelinho, dizendo a si mesmo as palavras de Goethe: "O melhor é a calma profunda em que diante do mundo eu vivo e cresço, e adquiro o que não me podem tirar com fogo e com a espada".

sexta-feira, 14 de março de 2008


Alegria na velhice. - O pensador ou artista que guardou o melhor de si em suas obras sente uma alegria quase maldosa, ao olhar seu corpo e seu espírito sendo alquebrados e destruídos pelo tempo, como se de um canto observasse um ladrão a arrombar seu cofre, sabendo que ele está vazio e que os tesouros estão salvos.

segunda-feira, 10 de março de 2008


Máscaras. - Há mulheres que, por mais que as pesquisemos, não têm interior, são puras máscaras. É digno de pena o homem que se envolve com estes seres quase espectrais, inevitavelmente insatisfatórios, mas precisamente eles são capazes de despertar da maneira mais intensa o desejo do homem: ele procura a sua alma - e continua procurando para sempre.

sábado, 8 de março de 2008


Todas as mulheres, todos os beijos delas
as formas variadas como amam e falam e carecem

Suas orelhas elas todas têm, orelhas e gargantas e vestidos
e sapatos e automóveis e ex-maridos

Principalmente as mulheres são muito quentes
Elas me lembram a torrada amanteigada
Com a manteiga derretida nela

Há uma aparência no olho: elas foram tomadas, foram enganadas
Não sei mesmo o que fazer por elas

Sou um bom cozinheiro, um bom ouvinte
mas nunca aprendi a dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores

Mas gostei das camas variadas lá delas
Pensar na vida olhando pro teto
Não fui nocivo nem desonesto
Só um aprendiz

Sei que todas têm pés e cruzam descalças pelo assoalho
Enquanto observo suas tímidas bundas na penumbra
Sei que gostam de mim
Algumas até me amam
Mas eu amo só umas poucas

Algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
Outras falam mansamente da infância e pais e
paisagens; algumas são quase malucas
mas nenhuma delas é desprovida de sentido;
algumas amam bem, outras nem tanto;
as melhores no sexo nem sempre são as melhores em outras coisas;
todas têm limites como eu tenho
Limites e nos aprendemos rapidamente


Todas as mulheres todos os quartos de dormir
Os tapetes as fotos as cortinas, tudo mais ou menos
Como uma igreja só, raramente se ouve uma risada

Essas orelhas esses braços esses cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a carência me sustentaram,
me sustentaram

quinta-feira, 6 de março de 2008


A história da melancolia inclui todos nós.
Eu, eu escrevo em lençóis sujos enquanto olho para paredes azuis e nada.

Eu já me acostumei tanto com a melancolia que eu a recebo como uma velha amiga.
Eu terei agora 15 minutos de aflição pela ruiva perdida, eu digo aos deuses.
Eu faço isso e me sinto bastante mal, bastante triste, então eu levanto LIMPO, apesar de que nada está resolvido.

Isso é o que eu ganho por chutar a religião na bunda.
Eu deveria ter chutado a ruiva na bunda, onde o cérebro e o pão e a manteiga dela
estão...

Mas, não, eu me senti triste por tudo: a ruiva perdida foi apenas outro rompimento em uma vida de perdas...

Eu ouço a bateria no rádio agora e sorrio.
Há alguma coisa errada comigo além da melancolia.

terça-feira, 4 de março de 2008


O grande rebu da maconha

Uma noite destas fui a uma reunião - em geral, o tipo do troço chato pra mim.
Sou essencialmente um solitário, um velho beberrão que prefere beber sozinho, talvez com a única esperança de escutar um pouco de Mahler ou Stravínsky no rádio.
Mas lá estava eu no meio da turba enlouquecedora.
Não vou explicar o motivo, pois isso já é outra história, talvez mais longa, e mais confusa ainda, porém, ao ficar ali parado, tomando meu vinho, ouvindo o The Doors, os Beatles ou o Airplane, misturados com todo aquele vozerio, percebi que precisava de um cigarro.
Estava a zero, como sempre aliás.
Aí vi aqueles 2 rapazes por perto, braços caídos e oscilando; os corpos frouxos, feito gansos; pescoços girando; os dedos das mãos à vontade - em suma, pareciam feitos de borracha, um elástico que se esticava, puxava e partia.
Cheguei perto:
- ei, caras, um de vocês tem cigarro?

Foi o que bastou pra borracha começar a saltar.
Fiquei ali parado, olhando, enquanto se entusiasmavam, estalando os dedos e batendo palmas.
- aqui ninguém fuma, bicho! BICHO, a gente não ... fuma.
- não, bicho, a gente não fuma, não desse tipo, não, bicho.
flipflop. flipflap. que nem borracha.
- nós vamos pra M-a-li-buuu, cara! é, nós vamos pra Malfii-bUUUU! bicho, nós vamos pra M-a-li-buuuuuu!
- é isso aí, cara!
- é isso aí, bicho!
flípflap. ou, flapflap.

Não podiam me dizer simplesmente que não tinham cigarro.
Precisavam me impíngir aquele lance de religião: cigarro era pra gente careta. Estavam indo pra Malibu, pra algum lugar onde iam "ficar numa boa", curtindo um pouco de erva.
Faziam lembrar, em certo sentido, essas velhinhas paradas pelas esquinas, vendendo "0 Atalaia".
Essa turma toda que vai de LSD, STP, maconha, heroína, haxixe, e remédio pra tosse, sofre da comichão d`O Atalaia": você tem que estar na nossa, cara, senão sifu, tá fora. esse lance é permanente e, pelo visto, uma OBRIGAÇÃO com quem usa esses baratos.
Não admira que a toda hora vão em cana - não sabem ser discretos - com o que lhes dá prazer; têm que afirmar que estão por dentro.
E o que é pior, tendem a ligar isso com a Arte, o Sexo, com o ambiente de Protesto.
O Deus do Ácido deles, Leary, lhes diz: "desistam da luta. me sigam." aí aluga um auditório aqui na cidade e cobra 5 pratas por cabeça de quem quiser ouvir ele falar. Depois chega Ginsberg, junto com ele, e proclama que Bob Dylan é um grande poeta. Autopropaganda dos que ganham manchetes posando de maconheíro.

Mas mudemos de assunto, porque isso também já é outra história. este negócio, do jeito que eu conto, e do jeito que é, tem braços à beça e pouca cabeça.
Mas, voltando aos rapazes que estão na crista da onda, os cucas de maconha.
A linguagem que usam, "chocante bicho, tem tudo a ver, o pedaço, maneiro, bacana, cafona, careta, embalo, de repente, xará, coroa" por aí, e não sei mais o quê.
Já ouvi essas mesmas frases - ou seja qual for o nome que se queira empregar - quando tinha 12 anos em 1932.
Deparar com tudo isso de novo, 25 anos depois, não contribui muito pra se simpatizar com o usuário, ainda mais quando considera que são o que pode haver de atual.
Grande parte dessa gíria se deriva do pessoal que usava drogas da pesada, a turma da colher e da agulha, e também dos velhos músicos negros das orquestras de jazz.
A terminologia dos que estão de fato "por dentro" já mudou, mas os pretensos modernosos, como dupla a quem pedi cigarro - esses ainda falam no estilo de 1932.

E essa história de dizer que quem fuma maconha acaba produzindo arte, é, no mínimo, duvidosa.
De Quincey escreveu coisas bem razoáveis, e "O comedor de ópio", apesar de ser leitura muito agradável, tem trechos do maior tédio.
E está na índole de quase todos os artistas tentar quase tudo.
São curiosos, desesperados, suicidas.
Mas a maconha vem DEPOIS que a Arte já está ali, que o artista já existe.
Não é ela que produz a Arte, mas se torna com freqüência, o pátio de recreação do artista consagrado, uma espécie de comemoração da vida, essas festinhas de embalo, e, também um campo de observação, bom pra cacete, pro artista surpreender as pessoas com a calça espiritual arriada ou, se não, tanto menos resguardadas.

Em 1830, as festinhas de embalo e orgia sexual de Gautier eram o assunto de Paris. todo mundo também sabia que Gautier escrevia poemas nas horas vagas.
Hoje, as festas é que são relembradas.

Saltando pra outro braço desta história: não ia gostar nem um pouco de ir em cana por uso e/ou porte de erva, seria o mesmo que ser acusado de estupro por cheirar calcinha no secador da vizinha. a erva, simplesmente, não é tão boa assim.
A maior parte do efeito é causada pela predisposição mental de acreditar que a gente vai entrar numa boa.
Se fosse substituída por outro macete, que não fosse droga, mas tivesse o mesmo cheiro, a maioria dos usuários acabaria sentindo efeitos idênticos: "ei, xará, isto é troço FINÍSSIMO, material de primeira!"

Quanto a mim, prefiro cá as minhas cervejinhas, não me meto com sujeira não por causa da polícia, mas porque esse negócio me chateia e causa pouco efeito.
Admito, no entanto, que o barato provocado pelo álcool e por dona "mary" seja diferente.
É possível ficar alto com a erva e nem sentir; com a birita a gente, em geral, sabe muito bem o que está fazendo.
Eu, sou da velha guarda: gosto de saber o que faço, mas se você preferir maconha, ácido ou seringa, não tenho nada contra, o problema é seu e, se achar que assim é que deve ser, tudo bem assunto encerrado.

Já basta o número de comentaristas sociais de escasso QI que existe por aí.
Por que deveria acrescentar o meu sarcasmo privilegiado?
Quem não ouviu ainda essas velhas que vivem dizendo: "oh, acho simplesmente ATROZ o que essa juventude anda fazendo por aí, com todas essas drogas e sei lá mais o quê! Que coisa horrível!" e aí a gente olha pra ela: sem olhos, sem dentes, sem cérebro, sem alma, sem bunda, sem boca, sem cor, sem ânimo, sem humor, sem nada, apenas um sarrafo ambulante, e a gente fica pensando o que o chá com bolinhos, a igreja e a bonita casa de esquina fizeram por ELA.
E os velhos às vezes ficam bem agressivos com o que uma parte da juventude anda fazendo - "que diabo, trabalhei DURO a vida inteira!" (eles acham que isso constitui uma virtude, quando a única coisa que prova é que o sujeito não passa de um perfeito idiota) "esse pessoal quer ganhar tudo sem fazer NADA! passando o tempo todo sentado pelos cantos, estragando o corpo com drogas, esperando viver às custas da riqueza da terra!"

Aí a gente olha pra ELE:
Que dúvida.
Está só com inveja, foi tapeado, perdeu os melhores anos se fodendo todo por aí.
O que gostaria mesmo, era de cair na gandaia se pudesse recomeçar a vida.
Só que não pode, por isso agora quer que os outros sofram como ele sofreu.

E de modo geral é isso aí, o pessoal da maconha faz um bicho de sete cabeças com essa porra de erva e o público não fica atrás.
E a polícia não tem mãos a medir, levando em cana e crucificando tudo quanto é maconheiro que lhes cai nas garras, e a bebida é permitida por lei até que a gente bebe demais, é preso na rua e aí então vai pra cadeia.
Pode se dar o que quiser pra raça humana que ela acaba esgravatando, arranhando, vomitando e mijando em cima.
Se legalizarem a maconha, os e.u.a. ficarão mais cômodos, mas não muito melhores. Enquanto houver tribunais, prisões, advogados e leis, serão utilizados.

Pedir a eles pra legalizar a maconha equivale a pedir pra que passem manteiga nas algemas antes de colocá-las na gente.
O que está te incomodando é outra coisa - por isso você recorre à maconha ou ao uísque, aos chicotes e roupas de borracha, ou músicas estridentes tocadas num volume tão alto que, porra, nem dá pra pensar.
Ou a hospícios, bucetas mecânicas ou 162 partidas de beisebol por temporada, ou ao vietnã, israel ou ao medo de aranhas, o amor da gente lavando a dentadura postiça amarelada na pia antes da foda.

Existem respostas fundamentais a questões delicadas, nós ainda estamos brincando com as segundas porque não somos suficientemente homens nem suficientemente francos pra dizer o que precisamos.
Durante séculos julgou-se que talvez fosse o Cristianismo, depois de lançar os fiéis aos leões, permitimos que nos lançassem aos cachorros.
Pensou-se que o Comunismo pudesse ser um pouco melhor pro estômago do homem comum, mas pouco fez por sua alma.
Agora brincamos com drogas, supondo que há de abrir novos horizontes.
O Oriente vem usando isso há mais tempo que a pólvora.
Descobriram que sofrem menos e morrem mais.
Maconhar ou não maconhar. "nós vamos pra M-a-l-i-buuu, cara! é, nós vamos pra MALLLLL-i-bUUUUU!"

domingo, 2 de março de 2008


Oh, it's a mystery to me
We have a greed with which we have agreed
And you think you have to want more than you need
Until you have it all you won't be free

Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...

When you want more than you have
You think you need...
And when you think more than you want
Your thoughts begin to bleed
I think I need to find a bigger place
Because when you have more than you think
You need more space

Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me...

There's those thinking, more-or-less, less is more
But if less is more, how you keeping score?
Means for every point you make, your level drops
Kinda like you're starting from the top
You can't do that...

Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me...

Society, have mercy on me
Hope you're not angry if I disagree...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me...