domingo, 30 de setembro de 2007


Põe um aparelho no seu dente,
Coloca a argola na orelha,
Depois põe esse piercing na tua língua,
Injeta silicone no teu peito,
Faz uma porção de tatuagem,
Encosta na tua pele ferro quente,
Imprime no teu corpo uma palavra,
E põe um parafuso na cabeça.
Faz uma trepanação no cérebro,
Puxa, corta, rasga e aperta.
O teu sexo, o teu sexo.
Faz um pieling, põe um marca-passo,
Se mutila todo e fica vesgo,
Introduz um córneo na tua testa
E põe um parafuso na cabeça.

sábado, 29 de setembro de 2007


Tendo a cigarra em cantigas
Passado todo o verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brilho,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.

- "Amiga", diz a cigarra,
- "Prometo, à fé d'animal,
Pagar-vos antes d'agosto
Os juros e o principal."

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
- "No verão em que lidavas?"
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: - "Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora."
- "Oh! bravo!", torna a formiga.
- "Cantavas? Pois dança agora!"

quinta-feira, 27 de setembro de 2007


Diabos, tem mulher por tudo quanto é canto
e mais da metade parece ser boa de cama,
e não há nada que eu possa fazer - a não ser ficar olhando.
Quem será que bolou um troço horrível desses ?
E no entanto não há muita diferença entre uma e outra - descontando-se uma gordurinha aqui, uma falta de bunda lá - simplesmente uma porção de papoulas desabrochando no campo.
Qual que se vai escolher?
E por qual serei escolhido?
Que importância tem?
É tudo tão triste.
E depois que as escolhas estiverem feitas, jamais dará certo,
pra ninguém, por mais que se afirme o contrário.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007


Eu sabia que havia alguma coisa de errado comigo,
mas não me considerava insano.
Era simplesmente que eu não conseguia compreender
como é que outras pessoas tornavam-se tão facilmente irritadas,
para em seguida com a mesma facilidade esquecer a sua ira
e se tornarem alegres,
e como é que eles podiam ser tão interessados por TUDO,
quando tudo era tão chato.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007


Quando eu era jovem, eu pensava que com a arte seria possível mudar o mundo.

Eu buscava constantemente um espetáculo que pudesse despertar no coração do público uma esperança.

Eu queria mostrar uma maneira diferente de viver, com mais amizade, criatividade, sem a obrigação de perseguir o dinheiro e o poder. Ilusão fútil que eu nunca consegui alcançar.
Não só a revolução não chegou, como as pessoas se tornaram cada vez mais loucas e materialistas.

Quando eu me dei conta disto eu vivi momentos difíceis pensando, pensando inclusive que minha vida era um fracasso e que todo esforço era inútil.

Mas um dia eu tive uma revelação: se não se pode mudar o mundo, pelo menos é possível mudar a si mesmo, encontrar algo em seu coração, um desejo, uma necessidade e entregar-se totalmente a ele, sem olhar para trás. Isso não é para a sociedade ou para os outros, não, é para você mesmo.

E eu fazendo esse palhaço que eu sou, eu encontrei essa coisa.
Provocar, burlar e fazer o público rir. Isso era tudo o que eu buscava em minha vida.
Por certo eu não mudava o mundo, mas os palhaços nunca mudaram o mundo, passam o tempo tentando sem nunca conseguir, por isso são palhaços.

Os palhaços gostam do fracasso e das ações ineficazes, são perdedores alegres e isto é a verdadeira força que têm, nunca se cansam de perder.
Desfrutam de cada fracasso e voltam em seguida a fracassar de novo, diluindo assim as certezas das pessoas sérias e que nunca duvidam.

Então, esse sangue que pareço ter na minha cabeça, esse sangue que tenho sobre a minha camisa, esse sangue que tenho no meu coração, esse sangue que está todo em mim é tão patético e inútil em seu simbolismo porque é sangue de um palhaço.
Um sangue que não vem de uma grande luta ou em nome de uma causa heróica.
É sangue de brincadeira, ao mesmo tempo verdadeiro e pouco importante.

domingo, 23 de setembro de 2007


Uma das divisões esquecidas entre os homens é a que separa aqueles que gostam do trabalho que tem de fazer e aqueles que se sujeitam a ele apenas como um mal necessário.
Esta distinção, apesar de pouco lembrada pelos psicólogos, é provavelmente muito importante
Certamente é mais importante do que as atuais divisões entre assalariados e explorados, louros dolicéfalos e mediterrâneos braquicéfalos, darwinistas e cristãos, republicanos e democratas, católicos e protestantes.

A política, a teologia e outros vícios de um homem só lhe tomam tempo, afinal, em seus momentos de lazer, e a forma de seu crânio não tem grande influência demonstrável,sobre o que se passa dentro dele.
Mas a natureza do trabalho que ele faz condiciona todos os pensamentos e impulsos de sua vida,
e sua atitude em geral diante dela é quase indistinguível da sua atitude para com o mundo.

Num dos extremos, temos o escravo absoluto: o homem que tem de passar a vida desempenhando tarefas que lhe são incuravelmente desinteressantes e não oferecem nenhum consolo à sua vaidade.
No outro extremo, temos aquele a quem Beethoven chamava de um artista livre: o homem que ganha a vida,
sem nenhum patrão para amolá-lo diretamente, fazendo coisas que o agradam enormemente
e que continuaria fazendo com prazer, mesmo que toda a pressão econômica sobre ele desaparecesse.
A segunda categoria pertencem os homens mais felizes do mundo, e, por isto, talvez, os mais úteis,
porque tudo que é feito com prazer resulta mais bem feito, seja produzir um material,
resolver um problema ou beijar uma garota;
e o homem que consegue fazer o resto da humanidade pagá-lo para ser feliz será obviamente melhor do que os outros, ou no mínimo de mais sorte. Aqui, sorte e superioridade se confundem.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007


Nada estava em sintonia, nunca.
As pessoas vão se agarrando às cegas a tudo que existe:
comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, encontros grupais, orgias, ciclismo, ervas, catolicismo, halterofilismo, viagens, retiros, vegetarianismo, Índia, pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, cópula, jogo, bebida, andar por aí, iogurte congelado, Beethoven, Bach, Buda, suicídio, roupas feitas à mão, vôos à jato, Nova Iorque, e aí tudo se evapora, se rompe em pedaços.
As pessoas têm que achar o que fazer enquanto esperam a morte.
Acho legal ter uma escolha.

terça-feira, 18 de setembro de 2007


A música é uma revelação mais excelsa do que toda a sabedoria e do que toda a filosofia.

sábado, 15 de setembro de 2007


Entrei no elevador e subi pra ir olhar no berçário.
Devia haver uma centena de recém-nascidos ali, atrás daquele vidro, chorando.
Sem parar. Esse negócio de nascer. E de morrer. Cada um na sua hora.
A gente chega sozinho e vai-se embora do mesmo jeito.
E a maioria passa a vida inteira sem ninguém, assustada e sem entender nada.
Uma tristeza indízivel tomou conta de mim.
Vendo todas aquelas vidas que teriam que morrer.
Que primeiro se transformariam em ódio, demência, neurose, estupidez, em crime, em nada.
Nada na vida e nada na morte.

terça-feira, 11 de setembro de 2007


How can people be so heartless
How can people be so cruel
Easy to be hard
Easy to be cold

How can people have no feelings
How can they ignore their friends
Easy to be proud
Easy to say no

And especially people
Who care about strangers
Who care about evil
And social injustice
Do you only
Care about the bleeding crowd?
How about a needing friend?
I need a friend

How can people be so heartless
You know I'm hung up on you
Easy to give in
Easy to help out

domingo, 9 de setembro de 2007


Trabalho e tédio – Buscar trabalho pelo salário - nisso quase todos os homens dos paises civilizados são iguais; para eles trabalho é um meio, não um fim em si; e por isso são pouco refinados na escolha do trabalho, desde que proporcione uma boa renda. Mas existem seres raros, que preferem morrer a trabalhar sem ter prazer no trabalho: são aqueles seletivos, difíceis de satisfazer, aos quais não serve uma boa renda, se o trabalho mesmo não for a maior de todas as rendas. A esta rara espécie de homens pertencem os artistas e contemplativos de todo gênero, mas também os ociosos que passam a vida a caçar, em viagens, em atividades amorosas e aventuras. Todos estes querem o trabalho e a necessidade, enquanto estejam associados ao prazer, e até o mais duro e difícil trabalho, se tiver de ser. De outro modo são de uma resoluta indolência, ainda que ela traga miséria, desonra, perigo para a saúde e a vida. Não é o tédio que eles tanto receiam, mas o trabalho sem prazer; necessitam mesmo do tédio para serem bem sucedidos no seu trabalho. Para o pensador e para todos os espiritos inventivos, o tédio é aquela desagradável "calmaria" da alma, que precede a viagem venturosa e os ventos joviais; ele tem de suportá-la, tem de aguardar em si o seu efeito: - é justamente isso o que as naturezas menores não conseguem obter de si! Afastar o tédio a todo custo é vulgar: assim como é vulgar trabalhar sem prazer.
Algo que talvez distinga os asiaticos, em relação aos europeus, é o fato de serem capazes de uma mais prolongada calma do que estes; mesmo os seus narcóticos agem lentamente e exigem paciência, ao contrário da repulsiva rapidez do veneno europeu, o álcool.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007


Sou um cara de classe, tenho classe pra dar e vender!
Estou com 32 anos, mas se trabalhei 6 ou 7 meses ao todo, desde que completei 18, foi muito. E sem dinheiro nenhum.
Olha só as minhas mãos! São de pianista!

quarta-feira, 5 de setembro de 2007


Eu não preciso contemplar essa gigantesca demonstração
de desperdício da humanidade, empanturrada lado a lado, soltando piadas,
rindo sem motivo nenhum, resmungando coisas sobre sexo
e comentando resultados de testes com rãs.
Não preciso vê-los andando ou se espreguiçando pra lá e pra cá
com seus corpos horríveis e vidas vendidas - sem olhos, sem vozes, nem nada,
e sem nem saber disso - somente o maldito desperdício, a nódoa em cima da cruz.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007


Ainda continuo procurando outro tipo de música.
Só que não existe. Deveria existir. Isso me perturba.
Escamotearam toda uma outra área.
Pense em todas as pessoas que nunca ouviram música decente.
Não se admira que seus rostos estejam caindo, não se admira que matem sem pensar,
não se admira que esteja faltando coração.

Tudo é ruim, insípido, sem vida, sem melodia, indiferente.
Mesmo assim, algumas dessas composições são vendidas aos milhões,
e seus criadores se consideram verdadeiros "Artistas".
É horrível, uma idiotice terrível entrando em jovens cabeças.
E eles gostam disso. Dê merda a eles, e eles comem.
Não conseguem discernir? Não conseguem ouvir? Não sentem a diluição, o mofo?

sábado, 1 de setembro de 2007


Eu sou um bicho do mato nato, e me basta viver com uma só mulher,
comer com ela, dormir com ela, andar pelas ruas com ela.
Não quero saber de muito papo, nem de ficar indo a lugares
Me sentia idiota pagando pra entrar no cinema e ficar lá sentado com outras pessoas , partilhando suas emoções.
Festas me davam ânsia de vomito.
Me irritavam as boas maneiras, o jogo social, o flerte,
os bêbados amadores, os pentelhos.

Só que festa , dança e papo furado energizam as mulheres.
Elas se achavam um tesão.
Mas são um pouco óbvias demais.
De modo que as nossas brigas corriam por conta do meu desejo de não ver ninguém,
versus o desejo delas de verem o maior número de pessoas possível.

Acho que estou acostumado a me sentar num quartinho,
e fazer com que as palavras e sons tenham algum sentido.
Já vejo o suficiente da humanidade nas ruas, nos supermercados,
nos postos de gasolina, nas estradas, nos cafés, etc.
Não se pode evitar.

Mas tenho vontade de me dar um chute na bunda quando vou a festas,
mesmo que a bebida seja de graça.
Nunca funciona comigo.
Raramente encontro uma pessoa rara ou interessante.
É mais que perturbador, é um choque constante.

Está me tornando um maldito mal humorado.
E hoje em dia, qualquer idiota pode ser um maldito mal humorado.
E a maioria é.

Socorro!!!