quinta-feira, 22 de maio de 2008


A música como intercessora. - "Tenho sede de um mestre na arte dos sons", disse um inovador ao seu discípulo, "que de mim aprendesse os pensamentos e os falasse depois na sua linguagem: assim eu chegaria melhor aos ouvidos e corações dos homens. Através dos sons podemos conduzir os homens a qualquer erro e qualquer verdade: pois quem conseguiria refutar um som?" - "Então você gostaria de ser visto como irrefutável?", perguntou o discípulo. O inovador respondeu: "Eu gostaria que o gérmen se tornasse árvore. Para que uma doutrina se torne árvore, é necessário que acreditem nela por um bom tempo; para que nela acreditem, ela tem de ser vista como irrefutável. A árvore requer temporais, dúvidas, vermes, maldade, afim de revelar a natureza e a força de seu gérmen; que ela se parta, caso não seja forte o bastante! Mas um gérmen só se pode destruir - nunca refutar!". - Quando ele afirmou isto, o seu discípulo gritou impiedosamente: "Mas eu acredito em sua causa e a considero tão forte, que direi tudo, tudo o que tenho no coração contra ela!". - O inovador sorriu consigo e o ameaçou com o dedo. "Essa espécie de discípulos", disse então, "é a melhor que há, mas é perigosa e nem toda espécie de doutrina pode suportá-la".

quinta-feira, 15 de maio de 2008


Pensamento mal-humorado - Aos homens sucede o mesmo que aos montes de carvão na floresta. Apenas depois de terem queimado e se carbonizado, como estes, os homens jovens se tornam úteis. Enquanto ardem e fumegam, são talvez mais interessantes, mas inúteis e freqüentemente incômodos. - De modo implacável, a humanidade emprega todo indivíduo como material para aquecer suas grandes máquinas: mas para que então as máquinas, se todos os indivíduos (ou seja, a humanidade) servem apenas para mantê-las? Máquinas que são um fim em si mesmas - será esta a umana commedia [comédia humana]?

quarta-feira, 14 de maio de 2008


Pobre. - Hoje ele é pobre; mas não porque lhe tiraram tudo, e sim porque jogou tudo fora - que lhe importa isso? Ele está habituado a encontrar. - Pobres são aqueles que não entendem a pobreza voluntária dele.

terça-feira, 13 de maio de 2008


Amizade estelar - Nós éramos amigos e nos tornámos estranhos um para o outro. Mas está bem que seja assim, e não vamos nos ocultar e obscurecer isto, como se fosse motivo de vergonha. Somos dois barcos que possuem, cada qual, seu objetivo e seu caminho; podemos nos cruzar e celebrar juntos uma festa, como já fizemos - e os bons navios ficaram placidamente no mesmo porto e sob o mesmo sol, parecendo haver chegado a seu destino e ter tido um só destino. Mas então a toda-poderosa força de nossa missão nos afastou novamente, em direção a mares e quadrantes diversos, e talvez nunca mais nos vejamos de novo - ou talvez nos vejamos, sim, mas sem nos reconhecermos: os diferentes mares e sóis nos modificaram! Que tenhamos de nos tornar estranhos um para o outro é lei acima de nós: justamente por isso devemos nos tornar também mais veneráveis um para o outro! Justamente por isso deve-se tornar mais sagrado o pensamento de nossa antiga amizade! Existe provavelmente uma enorme curva invisível, uma órbita estelar em que nossas tão diversas trilhas e metas estejam incluídas como pequenos trajetos - elevemo-nos a esse pensamento! Mas nossa vida é muito breve e nossa vista muito fraca, para podermos ser mais que amigos no sentido dessa elevada possibilidade.- E assim vamos crer em nossa amizade estelar, ainda que tenhamos que ser inimigos na Terra.

domingo, 11 de maio de 2008


O senso da verdade no artista. - No que toca o conhecimento das verdades, o artista tem uma moralidade mais fraca do que o pensador; ele não quer absolutamente ser privado das brilhantes e significativas interpretações da vida, e se guarda contra métodos e resultados sóbrios e simples. Aparentemente luta pela superior dignidade e importância do ser humano; na verdade; não deseja abrir mão dos pressupostos mais eficazes para a sua arte, ou seja, o fantástico, místico, incerto, extremo, o sentido para o simbólico, a superestimação da pessoa, a crença em algo miraculoso no gênio: considera o prosseguimento de seu modo de criar mais importante que a devoção científica à verdade em qualquer forma, por mais simplesmente que ela se manifeste.

sábado, 10 de maio de 2008


O erro acerca da vida é necessário à vida. -Toda crença no valor e na dignidade da vida se baseia num pensar inexato; é possível somente porque a empatia com a vida e o sofrimento universais da humanidade é pouco desenvolvida no individuo. Mesmo os homens raros, cujo pensamento vai além de si mesmos, não lançam os olhos a essa vida universal, mas somente a partes limitadas dela. Quem sabe ter em mira sobretudo as exceções, quero dizer, os talentos superiores e as almas puras, quem toma o seu surgimento como objetivo de toda a evolução do mundo e se alegra com o seu agir, pode acreditar no valor da vida, porque não enxerga os outros homens: portanto, pensa inexatamente. Do mesmo modo quem considera todos os homens, mas neles admite apenas um gênero de impulsos, os menos egoístas, desculpando os homens no que toca aos outros impulsos: pode também esperar alguma coisa da humanidade como um todo, e assim acreditar no valor da vida: portanto, também nesse caso por inexatidão do pensar. Tanto ao proceder de um modo como do outro, porém, constituimos uma exceção entre os homens. A grande maioria dos homens suporta a vida sem muito resmungar, e acredita então no valor da existência, mas precisamente porque cada um quer e afirma somente a si mesmo, e não sai de si memso com aquelas exceções: tudo extrapessoal, para eles, ou não é perceptível ou o é, no máximo, como uma frágil sombra. Portanto, para o homem comum, cotidiano, o valor da vida baseia-se apenas no fato de ele se tomar por mais importante que o mundo. A grande falta de imaginação de que sofre faz com que não possa colocar-se na pele de outros seres, e em virtude disso participa o menos possível de seus destinos e dissabores. Mas quem pudesse realmente deles participar, teria que desesperar do valor da vida; se conseguisse apreender e sentir a consciência total da humanidade, sucumbiria, amaldiçoando a existência, - pois no conjunto a humanidade não tem objetivo nenhum, e por isso, considerando todo o seu percurso, o homem não pode nela encontrar consolo e apoio, mas sim desespero. Se ele vê, em tudo o que faz, a falta de objetivo último dos homens, seu próprio agir assume a seus olhos caráter de desperdício. Mas sentir-se desperdiçado enquanto humanidade (e não apenas enquanto indivíduo), tal como vemos um broto desperdiçado pela natureza, é um sentimento acima de todos os sentimentos. - Mas quem é capaz dele? Claro que apenas um poeta: e os poetas sempre sabem se consolar.

quarta-feira, 7 de maio de 2008


O erro como bálsamo. - Diga-se o que quiser: o cristianismo quis libertar os homens do fardo das exigências morais, imaginando mostrar um caminho mais curto para a perfeição: exatamente como alguns filósofos acreditaram poder evitar a trabalhosa e enfadonha dialética e a coleção de fatos rigorosamente testados e apontar um "caminho real para a verdade". Os dois casos foram um erro - mas um grande bálsamo para aqueles fatigados e em desespero no deserto.

sábado, 3 de maio de 2008


Costume e beleza. - Não deixemos de notar, em favor do costume, que em todo indivíduo que a ele se submete inteiramente, de todo coração e desde o começo, os orgãos de ataque e defesa - físicos e intelectuais - se atrofiam: ou seja, o indivíduo se torna cada vez mais belo! Pois o exercitar desses orgãos e dos sentimentos que lhes correspondem é o que mantém feio e torna mais feio. Por isso o velho babuíno é mais feio do que o novo, e a jovem fêmea babuína se parece mais com o homem: ou seja, é a mais bela. - Tire-se uma conclusão, aqui, sobre a origem da beleza das mulheres!

quinta-feira, 1 de maio de 2008


- E finalmente: por que deveríamos dizer tão alto e com tal fervor aquilo que somos, que queremos ou não queremos? Vamos observá-lo de modo mais frio, mais distante, com mais prudência, de uma maior altura; vamos dizê-lo, como pode ser dito entre nós, tão discretamente que o mundo não o ouça, que o mundo não nos ouça! Sobretudo, digamo-lo lentamente...Este prólogo chega tarde, mas não tarde demais; que importam, no fundo, cinco ou seis anos? Um tal livro, um tal problema não tem pressa; além do que , ambos somos amigos do lento, tanto eu como meu livro. Não fui filólogo em vão, talvez o seja ainda, isto é, um professor da lenta leitura: - afinal, também escrevemos lentamente. Agora não faz parte apenas de meus hábitos, é também de meu gosto - um gosto maldoso, talvez? - nada mais escrever que não leve ao desespero todo tipo de gente que "tem pressa". Pois filologia é a arte venerável que exige de seus cultores uma coisa acima de tudo: pôr-se de lado, dar-se tempo, ficar silencioso, ficar lento - como uma ourivesaria e saber da palavra, que tem trabalho sutil e cuidadoso a realizar, e nada consegue se não for lento. Justamente por isso ela é hoje mais necessária do que nunca, justamente por isso ela nos atrai e encanta mais, em meio a uma época de "trabalho", isto é, de pressa, de indecorosa e suada sofreguidão, que tudo quer logo "terminar", também todo livro antigo ou novo - ela própria não termina fácilmente com algo, ela ensina a ler bem, ou seja, lenta e profundamente, olhando para trás e para diante, com segundas intenções, com as portas abertas, com dedos e olhos delicados...Meus pacientes amigos, este livro deseja apenas leitores e filólogos perfeitos: aprendam a ler-me bem! -